Todo homem quer ser 007

A identificação dos homens com seus ídolos pode levar alguns deles a adotar posturas lesivas ao conjunto da sociedade

Por Fernando Dourado Filho , do Recife (PE)

James Bond como 007

Conheci um sujeito que tinha uma estranha maneira de lidar com a mesmice da realidade. No emaranhado do trânsito de São Paulo, por exemplo, ouvia no toca-fitas do carro as vibrantes trilhas sonoras dos filmes estrelados por James Bond. Assim sendo, os violinos lânguidos de "From Russia with love" o ajudavam a aturar os engarrafamentos da Marginal Pinheiros. Na solidão dos quartos de hotel, ouvia "You only live twice" enquanto degustava um puro malte com vista sobre a baía de Hong Kong. E "For your eyes only" era a trilha sonora perfeita das circunstâncias em que tinha de se defrontar com o desconhecido ou o inusitado. A bem da verdade, diante da aridez de uma existência que nunca se distinguiu por grande proeza ou singularidade, as melodias despertavam ondas de autoconfiança e coloriam até mesmo as situações mais triviais, dando ao protagonista contornos heroicos que anabolizavam sua masculinidade. Era como se ele vivesse um eterno vídeo-clip e uma câmara oculta o filmasse. Pois bem, esse estranho indivíduo era ninguém menos do que eu mesmo. 

Ora, estas são apenas algumas das tantas bizarrices que me assaltavam no dia a dia. Poderia citar muitas outras. Tais como reger uma orquestra imaginária ao som de "Spartacus", de Aram Khachaturian, diante de uma plateia maravilhada. Ou pronunciar um discurso dramático, olhando meu rosto no espelho, em que exortava as pessoas a resistir à barbárie nazista, imitando Churchill ou De Gaulle. Ou ainda dirigir em Mônaco ao som da "Marcha da Vitória", com a diferença que dessa vez Galvão Bueno não gritava o nome de Ayrton Senna, mas o meu  "é ele, é ele quem vai receber a bandeirada, é ele, é festa brasileira em Monte Carlo". Como ator amador, caprichar nas simulações em várias línguas e lidar com as fantasias era quase um dever de ofício. É claro que estou falando dos devaneios publicáveis. Não chego nem perto daquelas em que apareço de braços dados com Julianne Moore no inverno de Boston ou beijando a tenista Maria Sharapova na Sibéria. Lá, na imensidão das paisagens níveas, salvo-lhe a vida bravamente, distraindo um urso colossal, dando tempo para que ela se esconda em nossa datcha.  

Mas certo mesmo é que enquanto essas sandices acometem sujeitos feijão com arroz como eu e alguns bilhões, a humanidade não se ressentirá grandemente. Terá só um doido a mais. As coisas ficam mais graves quando os delírios de grandeza e messianismo tomam conta de autoridades constituídas, gente que conta com poder de vida ou morte sobre as pessoas, ademais do fato de ocuparem grande espaço midiático. Nessa toada, é forçoso reconhecer que os mitos fundadores da juventude persistem vida afora. Dia desses foi Vladimir Putin quem confessou sua paixão por James Bond, o super espião já aludido. Para o plutocrata russo, pouco importava que Sean Connery triunfasse sobre russos sinistros e levasse a melhor. Era grande sim o fascínio pelo homem que desbaratava sistemas de segurança complexos à custa de frieza e cérebro, a ponto de se dar bem ao final da história, sempre acompanhado de beldades fatais. Ora, se até o "Czar" vibra com James Bond,o que não dizer do comum dos mortais? E, em nossas latitudes, por que empresários e ministros estariam imunes a querer imitá-lo? 

Nesse contexto, não é fortuito que o submundo se empolgue com maquinações tão criativas que nem mesmo roteiristas inspirados seriam capazes de impor a seus elencos. Foi o caso, por exemplo, da ousada sugestão de um negocista de fantasiar um Procurador da República de garçom para que este acompanhasse uma conversa dirigida com ninguém menos do que um Governador de Estado. Partindo, ademais, do pressuposto de que garçons são idiotas, comparáveis à mobília na mudez e na indiferença às evidências macabras que queriam produzir. É gritante como esse mesmo ator se vangloria tolamente de "operar" o Presidente da República. Como se ele e apenas ele fosse capaz de entrar na toca dos leões para perpetrar o feito sórdido. Na estranha gramática delinquente, a manipulação das pessoas é encarada como a prova suprema de inteligência. Ao escandir cada sílaba de "Ô doutor, nessa sua escola eu sou professor", o meliante não está apenas dando um mote de marchinha carnavalesca. Ele compõe o fundo musical das cinzas de Brasília enquanto decola para Nova York e diz "Hasta la vista, baby".    

Bond ou Napoleão, Delon ou Bogart, o fato é que a identificação dos homens com seus ídolos secretos pode levar alguns deles a adotar posturas lesivas ao conjunto da sociedade, mesmo quando estão alinhados ao bem. Para eles, temperança e serenidade deveriam pautar cada hora vivida para evitar o amadorismo. O problema é que a urgência em brilhar oblitera o senso de proporções que comporta a realidade, essa inimiga. Para agravar o açodamento e imediatismo, os mecanismos numéricos da era digital permitem que as ações sejam avaliadas – ainda que superficialmente – a cada minuto. Pouco importa que a turba dos cliques que injetam curtidas em redes sociais seja, em seu conjunto, bastante desqualificada para emitir juízos de valor confiáveis. Para todos aqueles que sonham com a aura messiânica de James Bond, e temem desaguar em "Os Trapalhões", vale lembrar que ele se excedia na maior das virtudes inglesas: a de não se levar muito a sério, tampouco de gabar-se de proezas. É por isso, e não pelas balas do revólver, que ele é eterno. Como "Diamonds are forever". Em tempos sombrios, convém portanto escolher com critério "The spy who loved me".      


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