Um dia muito especial

O que ficou de mais pessoal foi uma verdadeira obsessão com o noticiário antes de sair de casa

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho lembra o 11 de Setembro

Na manhã da terça-feira, 11 de setembro de 2001, eu acordei às 6 da manhã. Sem dar margem a quaisquer queixumes, saltei da cama e fui caminhar na Praça Buenos Aires, em Higienópolis, a poucas quadras de minha casa paulistana. Nessa época, morava na Avenida Angélica, e sempre haverei de associar o endereço a um novo amor, a um período profissional afluente e à descoberta das delícias da vida diária no mais agradável dos bairros paulistanos. A cada dois meses, passava uma semana em Barcelona, onde tinha uma representada e, para minha alegria, surfava o sucesso de um livrinho que lançara, chamado Ao Redor do Mundo, que a todo momento me valia convites para palestras e noites de autógrafo em faculdades de comércio exterior e relações internacionais em todo o Brasil. Ele também ajudaria a seu modo a mudar minha vida.  

Chegando de volta da caminhada forçada de dez voltas em torno da praça, fui direto para o chuveiro. Morando só, como até hoje, instruí a querida D. Celina, minha fiel escudeira, que provavelmente dormiria fora naquela noite. Mas que ela deixasse preparada uma copiosa salada de alface americana com lascas de frango grelhado e pequenos "croûtons" que nos restaurantes é conhecida como "Cesar´s salad". Era uma forma de manter a dieta e me precaver contra as invariáveis fomes noturnas. Dei então uma olhada no jornal à mesa do café da manhã e, antes de sair, abri a morosa internet para ver se havia um e-mail relevante. Foi então que li que um avião colidira com uma das torres do World Trade Center. Estranho trajeto, pensei. O que faria um jato naquelas bandas? Não teria sido um ato intencional? 

Mesmo assim, saí de casa e desci rumo à Avenida Brigadeiro Faria Lima, onde tinha escritório. Mas pelo rádio do carro, mal saído da garagem, soube da segunda colisão. Então subi de volta e, atônito, acompanhei a sequência daquele dia aterrador. D. Celina, que se convertera ao protestantismo alguns meses antes, e via Deus e seu antagonista em tudo ao redor, olhava incrédula aquelas cenas e eu tentava explicar onde tudo estava acontecendo. Apesar das imagens de Apocalipse, a brava mineira resistiu heroicamente à minha exportação para que se sentasse numa poltrona da sala. O fim do mundo poderia ter chegado. Mas não a ponto de fazê-la esquecer as liturgias de seu ofício que exercia de uniforme impecável e com esmerada etiqueta, pouco importando que não soubesse ler e que pegasse o ônibus pelo número.   

E foi assim que passamos o 11 de setembro de 2001. Naquele dia devo ter atropelado a dieta. Do que valia manter a linha se aviões se espatifavam a três por quatro nos céus americanos. O que seria aquilo? Quem estaria no comando? Conhecemos bem o resto da história, 16 anos depois. O que ficou de mais pessoal, contudo, foi uma verdadeira obsessão com o noticiário antes de sair de casa. Desde então, foram poucas as manhãs em que despertei e que não tenha ligado de imediato rádio ou televisão. Estava claro, a partir daquele fato seminal, que o mundo jamais voltaria a ser como antes. Dias depois, a caminho da Espanha, os controles de aeroporto já evidenciavam uma drástica mudança de padrão. O mais notável, contudo, foi uma espécie de tensão permanente ao despertar. O que deve ter se refletido na qualidade do sono de milhões

Mal sabia Bin Laden que essa neurastenia seria o maior legado que deixaria contra a cultura ocidental. 


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