O último idealista

Paulo Vellinho, 90 anos: o empresário que nunca deixou de ser homem público

Por André D´Angelo

Paulo Vellinho, 90 anos: o empresário que nunca deixou de ser homem público

Nesta quarta-feira, 6 de setembro, Paulo Vellinho (foto) completa 90 anos. Empreendedor que comandou a Springer, líder empresarial que presidiu a Fiergs e outras tantas entidades de classe, executivo da Coemsa e da Avipal, Vellinho poderia ser reverenciado como um dos personagens que ajudou a forjar a indústria gaúcha e brasileira do século 20. Mas a faceta que mais merece destaque é outra: a de homem público que nunca ocupou cargo público.

Não há contradição aí. Paulo Vellinho é de uma geração de homens de negócio, da qual também fez parte Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), cujos projetos empresariais jamais deixaram de contemplar um projeto de país. O comando de companhias e entidades de classe importantes era visto não como uma regalia a ser explorada para fins de promoção pessoal ou classista, e sim como uma responsabilidade da qual o capital privado não poderia se furtar naquela quadra da história do Brasil: a de ajudar a construir uma ideia de nação.  

Uma nação que aproveitasse sua vasta extensão territorial, sua natureza generosa e sua diversidade humana para, a exemplo dos Estados Unidos, cumprir uma espécie de Destino Manifesto tropical, de vocação para grandeza e protagonismo internacional. Protagonismo esse pautado pela autonomia econômica, com o fortalecimento da indústria local, e pela justiça social, fim último de qualquer projeto que pretenda falar em desenvolvimento.

Um ideal do qual Vellinho foi porta-voz enquanto esteve na ativa, de meados da década de 1950 até o início do novo milênio. Sua saída de cena coincide com o início do encolhimento da representação empresarial produtiva brasileira, restrita à mera reivindicação de benesses tributárias ou ao total alheamento em relação ao Poder Público. No primeiro caso enquadram-se os partidários do capitalismo sem risco, pregadores de um liberalismo rasgado que, claro, só deve valer para os outros, nunca para eles. No segundo, empresários e gestores que investem, inovam e trabalham ignorando qualquer interface com governos, por considerá-las inúteis. Sequer cogitam se tornar pontas-de-lança de projetos que transcendam suas organizações ou categorias para ganhar dimensão pública, em um lamentável desperdício de capital intelectual.

Paulo Vellinho continua na batalha, escrevendo para jornais gaúchos e proferindo palestras. Ao completar nove décadas de vida, pode jactar-se das empresas que comandou, dos empregos que gerou e das amizades que fez. E, principalmente, pode se orgulhar de ter travado o bom combate, de ter cerrado fileiras em nome de ideais que permanecem relevantes e atuais – por mais que o país com o qual tanto contribuiu pareça fazer questão de ignorá-los.

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