Neve sobre Peshawar

A tentação de explorar fronteiras levou-me um dia até lá

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho traça impressões sobre o Paquistão

Dizer que eu sonhava em conhecer o Paquistão, seria rematada inverdade. Minhas referências do país eram demasiado vagas e se baseavam em alguns poucos conhecidos que fizera na Inglaterra. Admitir que gostei do que vi quando fui a Karachi (foto) pela primeira vez, seria reincidir no engodo. Afinal, como poderia? Acaso havia algum charme nas ruelas apinhadas de mendigos e no surto de cólera que recomendava o uso de água mineral até para escovar os dentes? Como ignorar os motoristas histéricos que abriam caminho à base de buzinadas, o que alçava-os a semideuses diante dos pedestres em caos? E o que dizer do clima político tenso que culminaria com o assassinato da bela Benazir Bhutto, anos mais tarde? Mas o viajante que se preza tem de se insurgir contra os sentimentos iniciais de rejeição e desconforto. Caso contrário, não estará honrando seu passaporte. E foi assim que expandi nossos tentáculos até Lahore e Multan, cidade onde as pessoas se sentiam incomodadas com minha curiosidade natural de visitante. Seria da CIA? Ou do KGB?  

A tentação de explorar fronteiras levou-me um dia a Peshawar, promontório avançado por sobre a passagem de Khyber e, sem que o detalhe estivesse claro até então, a cidade já se transformara na base dos fundamentalistas islâmicos. No pátio das madrassas, os mulás destilavam fé cega na "jihad", ou Guerra Santa, junto aos jovens pupilos. Mais tarde, estes passariam a palpitar para morrer em ação na Tanzânia, Quênia, Somália, Chechênia, Bósnia, Kosovo e, "insh´Alah", na América, contra quem já naquela época grassavam os planos que desaguariam mais tarde no 11 de setembro. Por aquela sendeira, infiltravam-se os "muhajirin" para ajudar a força talibã a expulsar os russos da indômita Báctria. Onde estava? O que fazia ali? Ora, a intuição dizia que naquela encruzilhada se operavam coisas importantes para definir o futuro. E aqueles homens de olhos semicerrados tinham algo a ver com isso. Se os espaços planos e nus do Egito ou da Arábia Saudita – países de referência dos líderes –, escancaravam a localização dos mentores, as montanhas do Hindu Kush lhes franqueavam muitas cavernas, como a que coube ao Profeta quando da Anunciação. 

No lado afegão, Moscou ordenou um belo dia a retirada e as milícias a celebraram como um feito da fé, e não do território inóspito e do desgaste militar. Em Cabul, as barbas cresceram. Cada homem tinha que usá-la do tamanho de sua própria mão aberta. Caso ela não estivesse compatível com a norma, o indivíduo ficaria na cadeia até que crescesse. No zoológico, um louco achou que o Islã lhe daria forças para desafiar o leão. Foi morto com uma patada e um passante castigou o felino com uma granada que o cegou. Quanto às mulheres, foram proibidas de trabalhar. Com isso, acabou-se o ensino primário e médio, e a enfermaria dos hospitais ficou às moscas. Em Peshawar, onde eu estava, os árabes do Golfo passaram a se vestir de "shawar kameez", como os "mujahidin". Virou moda, um fetiche, um padrão estético, quase um ideal de vida. A fé virou indústria e logo se ligaria ao tráfico de ópio. Plantações de romã eram substituídas pelo cultivo de papoula. No bazar, eu comia "shashlik" de carneiro e me olhavam com ares de que não era bem-vindo. 

Os telhados estavam brancos e nevava pesado sobre Peshawar quando voei para longe dali. 


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