Israel: um roteiro sentimental

É um país salpicado de heranças culturais bem ancoradas nas três grandes religiões monoteístas

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho descreve um roteiro sentimental por Israel

Meu caro amigo, 

No momento em que te escrevo este bilhetinho, você deve ter decolado de Roma e já se encontra sobrevoando o Mediterrâneo oriental a caminho de Tel Aviv (foto) ao lado de Bárbara. Tivesse você me dito antes que iria ficar quase uma semana em Israel, eu teria tido tempo de consultar os amigos lá residentes e, com alguma sorte, um deles descolaria um tempinho para passear com vocês pela Dizenfgoff e lá mesmo levá-los para comer os frutos do mar do Goocha, a três quadras da praia. Mas parece que o tempo de vocês será demasiado curto, logo me permita ser pragmático e dizer umas poucas coisas que batem com nossas preferências mais corriqueiras, se é que o conheço bem depois de tantas plagas visitadas. 

Israel é um país pequenino e muito belo. A primeira coisa que posso recomendar é que passes pelo menos o primeiro dia em Tel Aviv, uma das cidades mais agradáveis do Mediterrâneo. Se Atenas ficou poluída e engarrafada e Alexandria sucumbiu ao obscurantismo que assolou o Egito nos últimos anos, é o único lugar onde você reedita os ares alegres de Beirute e a vocação cosmopolita de Istambul. Quando sair do eixo Tel Aviv-Jerusalém, não hesite em alugar um carro para poder explorar o norte do país. Já não temos mais nem o vigor nem a curiosidade que nos movia há 30 ou 40 anos. Mas para você, que vai pela primeira vez, recomendo ânimo para pegar a estrada e sentir a diversidade da perspectiva algo enviesada de seu amigo aqui. 

Dada sua cultura invejável, é dispensável dizer o quanto Israel é um país salpicado de heranças culturais bem ancoradas nas três grandes religiões monoteístas. Mas não será só isso que nos cativará a essa altura. Mesmo assim, sugiro que o amigo dê um passeio até Mea Shearim, nas cercanias da Cidade Velha de Jerusalém. Lá você vai se sentir transportado por alguns minutos a um "shtetl" lituano ou polonês. Se der para ir lá no frenesi de uma sexta-feira ao meio-dia, tanto melhor. Isso porque você verá os judeus religiosos em plenos preparativos para o "shabat" à porta de mercadinhos e padarias. Diga a Bárbara para ser cuidadosa com fotos. E, apesar da estação, cubra pernas e ombros para que os garotos da "yeshiva" não a chamem de "shiksa".

O que significam essas palavrinhas, você pode me perguntar. Pois bem, não tenho tempo de traduzi-las e já estou ampliando seu vocabulário. Dê uma olhada no Google que é mais divertido. Já que você só dispõe de um dia na cidade lendária, vá ao Muro das Lamentações e entre na parte interna, só facultada a homens, onde mil coisas acontecem. Inclusive celebrações de "Bar Mitzva" num caos que mistura cheiro de cera de vela, suor e devoção. Caminhe depois até o Monte das Oliveiras e respire a paz da cidade que dali parece adormecida. Por fim, não deixe de ir a Yad Vashem, o museu do Holocausto. É uma experiência e tanto, comparável à que tivemos em Yerevan, ao visitar o museu do Genocídio armênio. Está lembrado? Sei que sim. 

Quanto ao pernoite, mesmo que vocês não fiquem lá, recomendo uma visita ao lendário hotel King David, quase em frente ao não menos belo edifício do YMCA, um dos ícones de Jerusalém. Você que gosta tanto de café da manhã, se esbaldaria no de lá que tem até três tipos de caviar, peixes defumados, pães fresquinhos, queijos únicos e os deliciosos laticínios da terra. Percorra os corredores e atente para a trepidante história do estabelecimento, nem sempre ornada só de glamour e conforto. De Jerusalém sugiro que vocês peguem a estrada rumo ao norte, na direção de Afula, Tiberíades e Safed. E então vocês estarão na Galileia, meu pedaço preferido pelas razões que logo mais explicarei. Ah, que inveja de estar com vocês.  

Ao bordejar o Mar da Galiléia, atente para os "kibutzim" e "moshavim" onde as bananeiras crescem à beira da água. Certa feita, quando todos os hotéis da região estavam cheios, pernoitei no kibutz Degania, o pioneiro, ali perto. Não esqueça de parar em Safed e caminhar pelas ruelas dessa cidade sagrada e de ares sempre frescos à noite. Durma lá no agradável Ruth Ramonim ou mesmo no hotel do kibutz Ayelet HaShahar, onde seu amigo aqui já trabalhou como voluntário quando era jovem e cheio de otimismo quanto ao futuro da humanidade. Como um bom gormet que você é, não deixe de ir ao Doris Katzarim, na também simpática Rosh Pina, onde se come uma carne de sonho acompanhada de um ótimo Yarden Cabernet Sauvignon. 

Então sugiro que vocês subam até o vilarejo druso de Majdal Shams, aos pés do monte Hermon, no Golã. De lá, pode margear a fronteira síria na altura de Kuneitra e sentir a emoção única que só essas fraturas podem trazer. São muitas as cicatrizes da guerra do Yom Kipur. Dali eu desceria até Kiryat Shmona e isso os deixaria a um passo de Metula, na fronteira libanesa. Pegar o velho caminho britânico até Rosh Hanikra é uma boa pedida e de lá se prepare para dirigir até Haifa, onde pode dormir uma noite. Você se deleitará com as imagens do porto dinâmico. Bárbara vai ficar encantada com os jardins Bahai. Fixe como meta chegar a Ceasareia, já na rota de Tel Aviv. Viste as ruínas e esteja em tempo de ver o por do sol em Yaffo enquanto tomam um drinque.   

Conforme você viu, não incluí nada do Mar Morto e no deserto do Neguev. São regiões lindas, embora eu não vá a Eilat há muitos anos. Mas não quero tentá-lo a ir a uma região demasiado quente para a estação. Mas sei que outras vezes virão. Coroe sua temporada com uma noite no hotel Dan, por exemplo – aliás, o restaurante Rafael é maravilhoso –, mas prometa que não sairá do país antes de jantar no Messa, um lugar chique onde a comida é simplesmente sincrética, deliciosa e criativa. Tenha paciência com os jovens do aeroporto que podem ser um pouco redundantes com as perguntas e petulantes na conduta. Se você aproveitar duas ou três das sugestões alinhadas acima, já terá valido o esforço dessas linhas. 

Boa viagem,

Fernando


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