As agruras da vida civil

Com todas as validades por expirar, nada me fará perder prazos para os ritos que regem o lado sério da minha existência

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho conta as suas agruras da vida civil

Semana passada fui informado de que meu título de eleitor foi cassado por falta de comparecimento e de justificativa nas três últimas eleições. O que fazer agora senão ir atrás de um novo? Bem que tentei justificar minhas ausências nas eleições em Kiev e em Bucareste algum tempo atrás. Mas as embaixadas só estavam acolhendo os eleitores cadastrados, normalmente jogadores de futebol e raros residentes na Ucrânia e na Romênia respectivamente. Pelo menos tomei um chá quente sob nossa bandeira desfraldada nas ruas frias, mas saí do recinto sem o tal papelzinho.

Isso não é tudo. Nunca tive carteirinha de CPF, por exemplo, embora ele seja rigorosamente o mesmo desde que tinha 15 anos, conforme consta de muitos papéis. Mas o original, eu não tenho. Tem pior: não faço a mínima ideia de onde possa estar o certificado de quitação militar, tirado 40 anos atrás. O passaporte, minha verdadeira preocupação, ainda tem sobrevida de alguns meses, mas o visto americano talvez nem isso. Perdi a identidade no porre de um Carnaval olindense nos anos 1980 e sempre rejeitei o novo documento, tirado em São Paulo, onde moro. Logo há anos que não o vejo. No dia que perder o passaporte, caio na clandestinidade total.

Para completar meu sempiterno cartel com as agruras da vida civil, a TV pifou sem sinal já que não coloquei uma tal antena. Resultado: nem os noticiários pasteurizados da TV aberta eu posso mais ver. E eu que achava que ela não me deixaria na mão, apesar dos avisos macabros que permeavam os informes a todo momento. Pensando bem, não é de todo ruim porque sem ela leio mais e durmo mais cedo. Mas bem que fez falta nas noites invernais da semana passada. Uma olhadinha na novela não teria sido de todo ruim e sinto falta dos programas de Caco Barcelos, Serginho Groisman e de Pedro Bial, que só vejo se estou em hotel.     

Vamos ao resto. A habilitação expirou quando fiz 55 anos, ou seja, lá se vão quatro, e, na verdade, nunca pretendi renová-la porque já não tenho temperamento para guiar no Brasil. De vez em quando meu irmão recupera minha certidão de nascimento no cartório de Garanhuns, e desconfio que a última esteja em alguma gaveta junto com a declaração de IR. Mas geralmente a cópia fica com o contador e peço que ele a guarde para evitar novos extravios. No dia que ele bater as botas, não saberei o que fazer porque não sei sequer onde ele mora. Quando vem conversar, levo-o para almoçar, assino o papel e o despacho. É tão maçante, coitado. E falar de contabilidade comigo é o atalho mais certo para bocejar. 

Por milagre, mantenho em dia o aluguel, o condomínio e o IPTU porque o proprietário tem a bondade de consolidar as contas e me apresentá-las a cada dois meses numa só tacada. Tive a luz elétrica cortada ano passado por conta de R$ 48 vencidos, não tenho telefone fixo há quinze anos e o celular é pré-pago há quase dez. Mesmo assim, vez por outra esqueço de pagar os R$ 50. Tomo banho frio para não ter de ligar o gás da rua e, pela mesma razão, não tenho fogão, logo não se poderia cozinhar mesmo que tivesse gente habilitada em casa para tanto. Não teria paciência para receber instaladores e ganhar mais uma conta que, fatalmente, esqueceria de pagar. Aliás, tenho horror ao conceito de débito automático.

Por fim, não tenho internet em casa. A poltrona vermelha afundou e a faxineira paraibana e divertida aparece a cada três meses, sempre prometendo que será a última. Dois médicos me disseram que se não perder 30 quilos estou sujeito a agonizar no passeio público antes do que imagino. No entanto, asseguro, não há homem mais feliz do que eu apesar de tantos vencimentos à vista. Durmo emparedado pelos meus livros e as lombadas me sorriem em silêncio. De vez em quando me aboleto num avião e saio deambulando mundo afora, despreocupado em saber se terei um amanhã, mesmo porque ninguém tem uma resposta boa para isso.

Com todas as validades por expirar, nada me fará perder um prazo para os pequenos ritos que regem o lado sério da vida. Com isso quero me referir à cronologia de minha modesta vida intelectual. É ela que estrutura meu tempo. Não chego atrasado, não cancelo compromissos, ninguém espera por mim e respeito religiosamente vencimentos de jornais, revistas e editoras. Diz um amigo que isso advém de que essas medidas só dependem de mim. Tudo mais que quebre a casca da sociofobia e implique na interação com outros, fica comprometido. Acho que não, mas nada disso me preocupa. Só me preocupa o passaporte. Sequer o atestado de óbito que, para minha alegria, este não me competirá providenciar e, imagino, sequer o lerei. É isto. Pensando bem, é só vida que segue.


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