São Paulo no frio

No outono da vida, como ignorar as jornadas de inverno que para mim marcaram os dias primaveris do verão no coração?

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

São Paulo no frio

Vim a São Paulo pela primeira vez em 1968. Tinha então 10 anos, meu irmão tinha 7 e saíramos do Recife para o Rio a bordo do "Princesa Leopoldina", do Lloyd Brasileiro, com nossos pais. Adorei a viagem de navio, apesar do enjoo que acometeu mamãe durante boa parte da navegação. Especial foi também o reencontro com Copacabana, bairro em que morara na primeira infância e do qual tinha recordações surpreendentemente nítidas. Do Rio, pegamos a Dutra e chegamos na capital bandeirante, na velha estação da Luz. Ao cabo de uns dias, o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de japoneses, as delícias do restaurante Leão, na Avenida São João, e o frio. Até então, eu só o sentira com tal intensidade em nossa cidade natal, o maciço dômico de Garanhuns, engastado no alto da Serra da Borborema, lá onde Pernambuco ameaça terminar para começar Alagoas.    

Mais 10 anos transcorreriam até que voltasse à cidade. Também era inverno, mas a essa altura eu já não era tão facilmente impressionável. Entrado na casa dos 20 anos, minhas andanças mundo afora já tinham me acostumado à diversidade culinária, étnica e climática. Mesmo assim, era muito bom falar português a dez graus centígrados. É claro que atentei dessa feita para outras diferenças. Nunca vira tanto rapaz de minha idade admitir que gostava de chocolate – o que era meio desabonador para a masculinidade na minha escala de valores –, tampouco meninas parrudas que fingiam surpresa com o tamanho das sobremesas, mas que as comiam até o fim. Fiquei espantado em ver como as pessoas falavam como se estivessem bêbadas. Então me contaram que isso se devia à mistura de sotaques de origem: libaneses, italianos e japoneses ajudavam o mish mash

Então, ao visitar a esquina da Ipiranga com a São João, alguma coisa aconteceu em meu coração. Mais do que os versos do baiano, foi o maravilhoso sanduíche de pernil que vendiam por ali. Não era o melhor da cidade, mas para mim foi a mais completa tradução do que eu buscava. Como pano de fundo, a combinação venturosa de prazeres, oportunidades profissionais e um inverno maravilhoso que para mim se associava a tanta coisa boa: o aconchego de lareiras no Morumbi, as pizzarias de forno de lenha do Brás, banhos quentes a dois, lapadas de conhaque pelas ruas do centro, copiosas rabadas com polenta no restaurante Jangada, o festival de sopas no hotel Eldorado, e fondues untuosas no chalé suíço do Othon, vendo lá embaixo o trânsito esparso do Viaduto do Chá. Até aquela pobreza linguística começava a passar despercebida.   

É essa a São Paulo que me vem ao espírito quando as temperaturas ficam por vários dias em torno dos 10 graus. Nem sempre estou aqui nos dias frios. Quando isso acontece, porém, fico com a sensação de que perdi um momento fundamental em minha interação com a cidade. No outono da vida, como ignorar as jornadas de inverno que para mim marcaram os dias primaveris do verão no coração? Como desperdiçar o concurso desses atalhos que trazem alegria ao espírito? Por outro lado, os invernos não são mais o que eram, pois ficaram demasiado amenos. Mas quando chegam os dias frios, como foi a segunda-feira, dia 21, em que a sensação térmica foi de 5 graus, dá vontade de fazer o que de fato fiz. À tarde, fechei o computador e fui caminhar do Anhangabaú até a Sé. Dali fui à Liberdade comer "udon". O que mais me une à memória ancestral da cidade acontece no frio.  

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