Um almoço nos anos 1980

Reali Jr. era tudo o que eu achava dele e mais alguma coisa

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Jornalista Reali Junior

O jornalista Reali Jr. (foto) era uma das figuras mais queridas do rádio brasileiro. Na década de 1980, a caminho da fábrica, nos confins da zona leste, eu costumava ouvi-lo na Jovem Pan enquanto cortava as marginais paulistanas. O tom inconfundível de sua voz e o bom humor das intervenções só agregava ao homem culto que falava diretamente da "Maison de la radio", já que morava em Paris. Cá comigo eu pensava que iria contatá-lo quando fosse à França, o que acontecia a cada três meses. Mas o momento não chegava. Pois uma vez lá, eu era abduzido por minha agenda e só lembrava da promessa que me fizera quando voltava. Até que um dia um de nossos acionistas que viajaria comigo, disse que precisava de uma brecha de tempo em Paris para encontrar uma amiga querida, a atriz Marina Reali, nada menos do que filha do repórter e até hoje uma das mais belas mulheres da Europa, nada menos que a face dos cosméticos Lancôme. 

De posse do telefone dele, gentilmente cedido por Marina, marquei de vê-lo em Saint-Germain, mais precisamente na Brasserie Lipp da qual eu era habitué. Reali era tudo o que eu achava dele e mais alguma coisa. Se minhas memórias dos anos 1970 eram intensas, as dele eram excepcionais porque aportara à Cidade Luz já como homem maduro, em 1972. Eu chegaria um ano depois, mas ainda era um adolescente. Quando a conversa enveredou pela gastronomia, posto que tanto em São Paulo quanto em Paris se conversa sobre o jantar durante o almoço, Reali me apontou um homem vivaz que conversava animadamente com duas mulheres belas. "É o Christian Millau, um dos autores do guia Gault et Millau". E então não deixamos mais o tópico. Com caneta e um bloquinho de notas, apontei algumas das dicas do saudoso Reali, falecido em 2011. Quanto a Christian Millau, morreu semana passada ao cabo de uma vida próspera e feliz.     

Matutando sobre os caminhos que percorremos até os bons pratos, continuo embalado pela convicção de que o paladar se desenvolve na infância. Uma casa onde se sirvam iguarias variadas e em que as crianças sejam induzidas a comer de tudo dará ensejo a adultos mais plurais, logo mais preparados para apreciar de delicados sashimis de barriga de atum a copiosos cozidos ibéricos com a mesma alegria e senso de celebração. Já os que provêm de lares de mesa monotemática ou que encontraram terreno fértil para exercer caprichos, tornaram-se pessoas menos interessantes. Pois não há figura mais decepcionante do que o adulto com paladar infantil. Aquele que, sentencioso, diz que "come para viver e não vive para comer". Por trás da atitude aparentemente estoica se esconde, na verdade, uma alma descolorida. Seja como for, conheci pessoas que desenvolveram um gosto tardio pela cozinha, mas que se provou genuíno. 

Nesse contexto, reitero que sempre tive dificuldade de criar empatia sustentada com homens e mulheres que não soubessem ver na comida e na bebida a expressão manifesta de uma cultura, quando não de um momento de celebração. Foi o próprio Reali que me contou da decepção de um ou outro visitante brasileiro com as iguarias que ele lhes apresentava. Gente que desprezou as sofisticadas criações do "L´ambroisie" até o copioso cuscuz marroquino do "Chez Omar". "A conversa fica sem graça, sabe", disse ele. Adorava, por outro lado, receber Luis Fernando Veríssimo, notório bom garfo. Tudo isso me voltou à mente quando li o obituário de Christian Millau no "Le Figaro" da semana passada. Em homenagem a eles, bem que poderia ir a um bom restaurante novo aqui em São Paulo nesse fim de semana de clima propício à boa cozinha e à convivialidade. Alguém me sugere um que surpreenda e encante? Aguardo dicas. Bom fim de semana. 

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