Cuidado, ciclista ao volante

Logo vi que o automóvel era uma ocorrência rara na vida dessa mulher saudável e cheia de energia

Por Fernando Dourado Filho, de Frankfurt (Alemanha)

Minha amiga pediu emprestado o carrinho da filha para irmos a um casamento na linda comuna de Riquewihr. A moça revirou os olhos e, com ar contrafeito, deu-lhe a chave. Percebi que não o fez de bom grado, mas imaginei que era só porque tivesse melhores planos para o mesmo horário e que, privada do carro, se frustraria uma expectativa. Mas, como vim a perceber depois, o buraco era mais embaixo. Assim sendo, mal saímos de Estrasburgo em direção à estrada, eis que dois pedestres tiveram de saltar para trás sobre a faixa para evitar que os pés fossem esmagados. Joëlle nem piscou. Pois estava tão absorta pelas cores do verão alsaciano que os ignorou por completo. Para ela, aliás, não importava que o carro tivesse seis marchas para frente, além da ré. Impávida, só reconhecia a primeira – para partir – e a segunda para a navegação de cruzeiro, que podia ser qualquer coisa entre 40 km/h e 130 km/h. O motor, coitado, roncava nos três dígitos, mas não havia clamor que a fizesse engatar a terceira. Quarta, quinta e sexta eram só referências de dias da semana. 

Acostumada à bicicleta, logo vi que o automóvel era uma ocorrência rara na vida dessa mulher saudável e cheia de energia. Isso explicava parte da questão. Antes de fazer uma curva, por exemplo, colocava o braço para fora e, para pavor geral, emburacava nas rotundas desinibidamente, apesar de o direito de preferência não ser nosso, mas sim dos motoristas assustados que terminavam brecando para deixá-la passar. Ora, se no ciclismo isso tudo se dilui num emaranhado de quedas em cascata com joelhos e cotovelos ralados, a coisa é bem outra quando se trata de toneladas de lata e ferragem em velocidade. Lembrei então de Pequim nos anos 1990, quando os chineses trocaram as lendárias duas rodas por veículos de quatro. O paradigma internalizado de ciclistas era patente e, na verdade, persegue-os até hoje. Se houve evolução de lá para cá, esta foi muito discreta. Os sustos continuam embora menos flagrantes do que os que passamos quando de viagem pela Índia. É como o tuc-tuc na Tailândia. São eles que dão o padrão de condução coletivo.  

Cruzando cidadezinhas de contos de fadas, lá ia ela a milímetros da calçada, na faixa deserta dos ciclistas a que ela está acostumada há muitas décadas. Foi então que o destino quis nos prevenir contra o pior e, como advertência, fez com que os pneus do meu lado batessem com tremendo estrépito no meio-fio. A roda da frente empenou e a traseira rachou, embora ainda aguentasse um tantinho. Joëlle me pediu para usar da força bruta para alinhar a roda como se ela fosse um guidom de bicicleta. À custa de socos e pontapés, até que funcionou. Partimos com um ronco, como se uma folha de papelão estivesse acoplada ao para-lama dianteiro. Com alívio, vi que nos aproximávamos do recinto da festa. Lá chegando, tentaria salvar a aparência já encardida de fuligem e nacos de borracha cheirando a queimado. Mas então o carrinho soluçou e, afinal, morreu. Motor, pensei. Ou caixa de marcha. No acostamento, resignados, vimos no painel que nada mais era do que uma pane seca. Mas pudera, pensei. Afinal, onde já se viu abastecer bicicleta?        


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