Viver em adultério

Paradoxalmente, minha alma sofre pelas grandes fidelidades que devota aqui e acolá

Por Fernando Dourado Filho, de Estrasburgo (França)

Fernando Dourado Filho fala sobre como é viver em adultério

Nunca tive grandes dilemas sentimentais. Durante minha juventude e parte da vida adulta, se me relacionava com alguém, mas me sentia fortemente atraído por outra pessoa, achava que competia só a mim saciar a curiosidade. Quem poderia desempatar em meu lugar? Ninguém. E aconteceu sim de manter uma relação correndo em paralelo à outra mesmo porque sabia que mais cedo ou mais tarde as coisas se resolveriam naturalmente e então, ao abrigo de dilemas de agenda e cobranças, eu poderia ficar com uma delas. Ou, como chegou a acontecer, nem com uma nem com a outra, mas com uma terceira que aparecia providencialmente como se fosse uma luz a iluminar um caminho confuso e perigoso, mesmo porque não há dor maior do que ferir o sentimento alheio. Tudo isso foi há muito tempo e, a bem da verdade, já constituiria uma proeza ter hoje uma só pessoa que se devotasse tanto a mim. Seria mais prodigioso do que combinação dos muitos afetos voláteis do passado. Mas como haveria de saber se não tivesse tentado? Para sermos benevolentes, são as tais conclusões da maturidade. 

Apesar de falarmos de páginas viradas, ainda hoje tenho leves transtornos de consciência quanto à fidelidade. Isso porque se já não era totalmente indolor escolher entre Maria e Joana sem mergulhar no universo delas, continua extremamente complicado para mim ver para que lado pende o coração quando se trata de optar por certos países e culturas a que me sinto especialmente ligado. É claro que podemos gostar de muitos e o afeto a um não será excludente com relação a outro. Isso se aplica à imensa maioria deles. Já quando se trata de optar entre a Alemanha e a França, por exemplo, tenho sim um problema concreto, como se a afinidade com um implicasse necessariamente numa deslealdade para com o outro. É claro que não há impedimentos externos de quaisquer ordens para administrar esses sentimentos. Não estamos em guerra e ademais, meu passaporte é brasileiro, ou seja, totalmente neutro com respeito às idiossincrasias das duas grandes nações. Meus ancestrais europeus, lá da Península Ibérica, são mais um estado de espirito do que uma referência geopolítica. Como, portanto, o dilema se manifesta?  

Bem, talvez não seja fenômeno fácil de explicar. Vejamos bem, estou há alguns dias em Estrasburgo, França, e diariamente viajo 15 minutos de bonde para ir até Kehl, na Alemanha. No caminho, passo por uma espécie de mutação. Progressivamente, vou deixando o francês de lado e passo a pensar em alemão. É como se fosse um atleta fazendo alongamento. Lá chegando, se tenho tempo, tomo um café na rua principal e me dirijo à garçonete de forma educada, mas neutra. Já separo os três euros e vinte de praxe. À porta do escritório, confiro o horário no celular e espero as 10 horas em ponto para bater à porta. Sou cuidadoso com a ordem na mesa, não falo ao telefone no recinto e me dirijo às pessoas em voz muito baixa. Se vou fazer compras antes de voltar, o que resulta sempre mais barato, pego os produtos sem sequer olhar os preços porque sei que serão corretos. Nem "billig" (barato) nem "teuer" (caro), mas "preiswert" (espécie de preço justo). Vejo franceses fazendo compras e me divirto com a atitude deles, pois, de fato, parecem se sentir no exterior, e não numa extensão natural da Alsácia. Então me sinto 100% alemão.   

À hora de voltar, chego à parada diante da estação e penso comigo mesmo como é bom reatar com a cultura latina. Já dei minha cota de contribuição ao mundo germânico e suas palavras bem pensadas. Estrasburgo pode não ser Madri ou Roma, mas enfim é terra francesa. Lá poderei comprar jornais fresquinhos no quiosque da Praça Kléber que para mim terão sempre o cheiro de tinta de impressão das rotativas de Paris. É claro que isso é uma grande ilusão. Mas o que não é? Já readaptado ao modo francês, vejo nos restaurantes alguns casais alemães meio desengonçados, trajando chinelos com meias de lã em pleno verão, e rio comigo mesmo da falta de mundanidade daqueles caipiras de Kehl e região, lídimos representantes dos confins de Baden Württemberg. Nos restaurantes, examinam o cardápio e discutem a melhor relação custo-benefício. Agem como se estivessem realmente em outro país, e não na maior cidade da região. E parecem ignorar que quem os atende descende de gente que já foi alternadamente alemã e francesa cinco vezes em 150 anos. Condescendente, rio da situação. Então me sinto 100% francês.   

Para me desvencilhar da bipolaridade que teima em reger minha vida, nada como um terceiro país durante essas estadas para desempatar o jogo e me remeter à consciência tranquila. Assim sendo, quando dou uma escapada aqui mesmo dentro da Europa, respiro aliviado. O país só não pode ser a Inglaterra porque gosto tanto de lá e me sinto tão em casa que vou começar a rememorar Churchill e esquecerei minhas afiliações franco-germânicas. Melhor é ir até um país como a Bélgica ou a Holanda. Nada, evidentemente, de ir à Espanha, Portugal ou Itália porque de novo posso me sentir excessivamente identificado, o que destroça a paz de espírito e me sentirei desleal com relação à França, à Alemanha e agora também à Inglaterra. Lichtenstein e Bulgária, por exemplo, são lugares que não me estraçalharão a alma cosmopolita vicejada. No fundo, é tudo uma questão de pertencimento. No Brasil, também vivo o mesmo. Voando entre o Nordeste e o Sudeste, sinto-me dilacerado quando o avião decola do Recife, mas me sinto em casa quando chego a São Paulo. Dias depois, as sensações se repetem no sentido contrário. 

Como se vê, sou dominado por uma alma que podemos qualificar de adúltera. Paradoxalmente, ela sofre pelas grandes fidelidades que devota aqui e acolá. E tem por grande defeito, este sim, amar demais.   

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