Face a face com um "millennial"

Pensando bem, era uma dádiva especial que não tivesse a essa altura que aturar uma criatura dessa na minha vida

Por Fernando Dourado Filho, de Kehl (Alemanha)

Fernando Dourado Filho face a face com um "millennial"

Quarta-feira eu voltava da Holanda de trem e por um desses lances de sorte que podem acontecer mesmo a quem não está acostumado a ter muita, o DB  [serviço ferroviário da Alemanha] me propôs um lugar em primeira classe no Intercity contra o pagamento de um suplemento de apenas 5 euros. Contente com a possibilidade de ter mais espaço para as pernas e uma mesinha de trabalho, lá fui eu à procura de meu lugar. Cumprimentei as pessoas em volta com um "Guten Abend" regimental em respeito ao adiantado da hora e apesar do dia claro, e me instalei. Coloquei o computador na mesa, tomei uma lata de cerveja com sofreguidão e abri o jornal italiano de esportes para me distrair com as fofocas que cercam o mundo do tênis, do futebol e da Fórmula 1. Foi só então que prestei atenção à figura que estava sentada na minha frente, de pernas esparramadas em direção a meu espaço e de olhar fixo num telefone que tinha metade do tamanho de um tablet.  Na hora, meu alarme interno soou. A situação não me cheirava lá muito bem. Era um millennial. Mil vezes um terrorista do que aquilo. 

Quem era ele? Era um jovem que poderia ter qualquer idade entre 16 e 20 anos. Mal o trem saiu, tirou da mochila uma espécie de farnel que alguém lhe preparara. Consistia em um sanduíche de queijo em pão de forma branco, dois tomates inteiros, uma garrafa de chá frio sabor limão e uma lata redonda com batata frita que, para minha surpresa, ele comeria como sobremesa. Via-se que era um rapaz que trajava roupa de qualidade e que, além do mais, viajava de primeira classe, detalhe que em certas famílias com dinheiro já seria considerado uma aberração, pois implica dar de graça regalias pelas quais as pessoas precisam lutar para ter um dia. Enquanto comia, escancarando a boca e estalando a língua como se estivesse açulando um cavalo, o cobrador chegou para lhe verificar a passagem. Nitidamente incomodado com aquele intruso, ele abriu uma tela no telefone que o funcionário passou pelo código de barra. Sim, estava bem, mas precisava de uma identidade que provasse que ele era ele. Ah, isso ele não tinha, disse com o sotaque chiado dos nativos de Colônia. O cobrador que se virasse.

Paciente, o homem lhe pediu os dados para fazer uma verificação com as coordenadas do viajante que constavam do sistema. Nitidamente agastado com aquela cavilação à hora em que cravava os dentes nos tomates, disse que se chamava Hans Peter K. e que era natural de Bad Godesberg. Com má vontade, recitou o endereço e não pareceu nem aliviado nem agradecido quando o funcionário o liberou com bonomia: "Das ist schon gut", riscou o ar com a mão como fazem os alemães para dizer que está tudo OK. Atacando as batatas crocantes de boca escancarada e fazendo agora enorme estardalhaço – como ele tinha auriculares enterrados nos ouvidos não se dava conta do quanto aquela sonoplastia era desagradável –, esticou os pés e invadiu meu espaço como se estivesse em casa. Como ele não ouviria mesmo o que eu tinha a dizer, dei-lhe um safanão firme com o pé e ele sentiu a estocada de uma canhota tamanho 46 que já fez muito gol da entrada da grande área. Olhou-me assustado, recuou o equipamento e eu me saí com um "Entschuldigung" insincero e de praxe. A ele sequer ocorreu pedir desculpas. 

Abri o computador e passei a matutar sobre os muitos presentes que recebera da vida: estudos, viagens, namoradas, saúde, espírito independente e desafios renovados. Mas, pensando bem, era uma dádiva especial que não tivesse a essa altura que aturar uma criatura dessa na minha vida. O que seria de mim se ele fosse meu filho ou mesmo sobrinho? Como eu reagiria a tanto desrespeito e lassidão? Qual seria minha reação se eu estivesse ligado por laços de sangue a alguém que passasse duas horas de viagem a se fotografar com uma máquina idiota e a rir às gargalhadas de outros tantos néscios iguais a ele que acompanhavam aquela viagem cuja evolução ele documentava? Tenho certeza de que ele tirou uma foto minha num momento de distração e certamente seus amigos riam naquela hora do gordo ranzinza que o olhava com ares de quem dissecava um inseto e tinha vontade de trucidá-lo. Até a estação de Karlsruhe onde desembarcou, o rapaz não leu sequer uma linha. A vida dele se cingiu à inteiração de imagem e som com a tela. Sequer a beleza de algumas paisagens o fez olhar para o lado. 

Fiquei com a impressão de que Hans Peter jura que o sol nasce todo dia em função da existência dele.

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