Ventos da Holanda

O diminuto país encerra prazeres a todo instante

Por Fernando Dourado Filho, de Utrecht (Holanda)

Vista da Holanda

Eis um país que comporta interessante paradoxo. É pequenino, por certo, mas o povo é dos mais globalizados dos tantos que conheci em minhas andanças ao redor do mundo. Falemos, pois, primeiramente das fronteiras físicas. Certa vez ia apenas cruzá-las, no trajeto entre a Alemanha e a Bélgica. Saindo por Aachen, deparei-me com a placa "Bem-vindo à Holanda". Segui caminho. Aproximadamente 30 minutos de carro mais tarde, eis que vi outra placa: "A Holanda espera revê-lo em breve. Tenha uma boa viagem". E, automaticamente, "Bem-vindo à Bélgica". É claro que se tratava de um trecho diminuto de um reino que já é pequeno. Mesmo assim, nunca uma permanência num país tinha sido tão curta. Mas, como adiantei, isso não impede que seus súditos sejam pessoas de grandes horizontes, frequentemente poliglotas, e dados a indistinta plasticidade intercultural, o que explica que tenha marcado presença em paragens tão heterogêneas quanto no Nordeste brasileiro, nas Antilhas, na África e no Sudeste da Ásia, mormente na Batávia ou Indonésia.

Nesse contexto, não deve ter sido por outro motivo que algumas das maiores autoridades mundiais em convivência, comunicação e negociação intercultural sejam daqui. Falo no caso do ilustre professor Geert Hofstede, tido como o mais expressivo pesquisador de variação de comportamentos entre os povos, e do não menos notável Fons Trompenaars, cujo livro "Riding the waves of culture" foi seminal na propagação das ferramentas analíticas que decodificam o "software" mental das pessoas segundo a cultura, o que facilita sobremodo executivos de todo o mundo a se anteciparem ao choque cultural e, em assim fazendo, a alargar a zona de conforto e empatia com interlocutores das mais variadas origens. Assim sendo, só mesmo representantes de um povo naturalmente inclusivo, e que falam ademais um idioma de pouco apelo, poderia elevar esse estudo ao estado da arte. Mal sabem as pessoas que lidam com culturas estrangeiras o muito que perdem por não conhecerem a obra que eles nos legaram. 

Isso dito, a diminuta Holanda encerra prazeres a todo instante. Seja pelas flores que abundam no verão. Seja pelo aconchego das casas que são consideradas as mais acolhedoras de toda a Europa e onde não se usam cortinas. Nação de ciclistas inveterados e de gente profundamente igualitária, aqui a noção de distância de poder é mínima, o que leva as pessoas a serem muito leves, informais e bem humoradas. Pragmáticos tenazes, superam as limitações geográficas e a escassez de recursos naturais – salvo pelo gás – com um enorme aporte de criatividade. Boa parte desses programas televisivos que se vendem no mundo inteiro ditos "reality shows" foram concebidos aqui. Se eles imbecilizam protagonistas e assistentes, não é problema dos que os criaram. O benefício imediato para o país se traduz em polpudos royalties que eles encaixam nos quatro cantos do mundo. A localização geográfica, contudo, vem em primeiro plano. Acostumados a fazer mais com menos, transformaram Roterdã em porto pujante e dominam a logística e a distribuição de produtos alimentícios para a Europa. 

Mas antes que nos esbaldemos numa litania sem fim sobre esse povo admirável e tão caro à alma pernambucana, convém fechar o foco e nos atermos à componente comportamental, de todas sempre a mais intrigante. Pois bem, a prefeitura de Amsterdam acaba de abolir o tratamento de "senhor" e "senhora". Doravante as autoridades se dirigirão à população sob a forma de "caros concidadãos, caros habitantes, caras pessoas presentes". Ademais, não usará mais o substantivo "homossexuais", e sim "pessoas rosas". De resto, "menino" ou "menina" estão igualmente banidos de certificados sem que se lhes aponha na sequência um "de nascimento", o que deixa aberta a possibilidade de que tenham mudado de ideia no meio do caminho. Tudo isso consta do novo guia linguístico que deverá ser adotado pelos funcionários de forma não compulsória, mas progressiva. É assim que eles entendem que se cria uma cultura de inclusão duradoura. Tudo isso visa a evitar maiores constrangimentos aos 50 mil transgêneros que vivem aqui. 

Ademais, as autoridades dão como certo que está ultrapassada a clivagem entre homossexuais e heterossexuais. Pois para além dos transgêneros, há também de se considerar os intersexuais, também chamados em inglês de "queers", palavra intraduzível e que originalmente era aplicável a uma gente dita "bizarra". Aqui na Holanda agora serão reconhecidas como "alosexuais" ou mesmo "altersexuais". Essas são algumas das denominações possíveis para quem não é simplesmente heterossexual. A prefeitura daqui de Utrecht já tem banheiros neutros para quem não se sentir à vontade no feminino ou masculino. É claro que algumas facções políticas consideram que essas ações são demagógicas e levam a sociedade a coonestar uma ditadura de minoria. Seja como for, o próprio metrô londrino em seus comunicados internos já não se dirige aos usuários como "ladies and gentlemen" e sim por um genérico "hello everybody". Em documentário da cineasta Sophie Dros, alguém de nome Selm definiu-se assim: "Sou um homem no plano jurídico, uma mulher no hormonal e um não sei o quê o plano social". 

Seja com for, deverá ser questão de tempo até que essas práticas sejam aplicadas a boa parte do continente europeu. Se em parte elas já integram as paisagens escandinavas sem quaisquer sobressaltos –- em sueco já se tem um terceiro pronome, dito neutro, para contemplar quem não e "ele" nem "ela" – é claro que isso não se dará sem muitas resistências. Elas podem ser insuperáveis nos Bálcãs e no Leste de forma geral, para não falarmos da Rússia. O pensador holandês Geert Hofstede, acima referido, já costumava dividir as culturas entre masculinas e femininas. As primeiras são aquelas onde uma componente autoritária é subjacente às inteirações sociais: forte distância de poder, autoritarismo e confusão entre o público e o privado. Nas femininas, há tendência à prática de uma lei igual para todos, transparência e um achatamento das pirâmides hierárquicas. Sem que ele tenha que recorrer a uma terceira categoria para acompanhar os tempos, será nas sociedades femininas onde essa transição se dará mais facilmente. Uns dias de verão entre os moinhos da Holanda são, portanto, um promontório de observação para entendermos para que lado os ventos sopram. 


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