Questão de intimidade

Ao falarem de Gil, será por certo do baiano Gilberto, onde o monossílabo aqui vale como sobrenome

Por Fernando Dourado Filho, de Estrasburgo (França)

Ao falarem de Gil, será por certo do baiano Gilberto, onde o monossílabo aqui vale como sobrenome

Acho gracioso o traço pernambucano que leva alguns de meus conterrâneos a se referirem a artistas pelo primeiro nome, como se a comunhão espiritual que tivessem com o dito cujo fosse de apelo universal e dispensasse os esclarecimentos que só os complementos podem dar. Assim sendo, quando se diz Chico está subentendido que se trata do Buarque, pois sendo o contexto o da música, está excluído o Anysio e, por caducidade, até Francisco Alves. Ao falarem de Gil, será por certo do baiano Gilberto, onde o monossílabo aqui vale como sobrenome. Até por isso, a ninguém ocorreria confundi-lo com Gil Vicente, consagrado pintor da terra. Tampouco com o apresentador Raul Gil. Este, além de alheio à "intelligentsia", seria se tanto Raul, o que poderia desaguar em outras possibilidades como o Seixas ou o Castro, segundo as afiliações, simpatias e referencias de cada um. 

Na verdade, a ênfase parece recair sobre a parte nuclear do nome. Betânia, que vocês sabem quem é, jamais seria Maria. O mais singelo dos nomes femininos seria reservado à Callas, no caso de um enamorado do canto lírico, e sequer sobraria para a querida Creusa. Os menores nomes podem ser os mais intrigantes. Edu vale para o Lobo ou o da Gaita. Já a gaúcha Elis, convenhamos, está imune a homônimos. Risco este que tampouco corre Gal que, dizia a lenda, queria namorar com um rapaz que fosse o tal, pelo menos na música. Impagável é quando a intimidade se aplica a figuras periféricas do firmamento artístico. Francis, por exemplo, me pegou desprevenido. Quem seria? No sudeste, é como alguns boçais se referem a Paulo, o falecido jornalista. Mas para a tal tribo recifense trata-se do discreto Hime, o que jamais eu teria adivinhado, se não o tivessem associado a uma certa Olívia, caso em que a soma de dois médios perfaz um inteiro.   

Nessa confraria de íntimos – Nana, Naná, Paulinho, Caetano, Rita, Tom, Jards –, ocorre-me que nunca ouvi um americano chamar Sinatra de Frank – sim, talvez fazendo graça – ou um francês se referir a Aznavour como Charles. A um alemão nunca ocorreria chamar o maestro Von Karajan de Herbert.  No cinema, Marlon poderia passar por um gato e só o forte Brando identifica o ator lendário. Interessante que essa familiaridade pode se diluir quando as personalidades têm uma ressonância especial. Então, paradoxalmente, o chique é apor um "doutor" à frente do nome. Assim sendo, só incautos se referem a Arraes, Brizola ou Pelópidas – para citar alguns dos proeminentes da política –, sem lhes conferir o tratamento respeitoso que, longe de distanciar, tem aqui o condão de aproximar. Mas se você quer mesmo inovar, saiba que o último grito é ignorar o nome artístico em favor do de batismo. Que tal chamar Belchior de Antônio Carlos, Cazuza de Agenor e Fernanda Montenegro de Arlette? Pois viva a noite do Recife e você verá isso acontecer.         

É por isso que Reginaldo (Rossi) dizia que o Recife era uma cidade de "encantos mil". 


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