Carta a Luiz Felipe D´Ávila

A vida se vive melhor sem os desgastes da exposição política brasileira

Por Fernando Dourado Filho, de Estrasburgo (França)

Fernando Dourado Filho escreve uma carta para Luiz Felipe D´Ávila

Querido amigo, 

Se podemos tirar uma conclusão preliminar dos eventos políticos da semana que termina e projetá-los para a orientação de quem aspira a se apresentar a um pleito majoritário no Brasil pela primeira vez, pois bem, acho que  momento nunca foi tão propício. E isso acontece por uma razão muito simples. Já não há a essa altura outra entidade a quem pedir bençãos e apresentações no cenário político nacional. A interlocução agora pode se dar diretamente com sua excelência o eleitor. A menos que estejamos falando de um grotão perdido nos confins do Tocantins, e olhe lá, o esfacelamento das lideranças públicas de grande coturno, tanto nos âmbitos estaduais quanto federais, mais do que nunca dispensa intermediários. A saturação da sociedade civil com propostas carcomidas, viciosas e anquilosadas – pelo menos é o que aparenta – abre caminho para uma lufada de oxigênio no organismo exangue de nosso país. 

Nesse contexto, apenas para simularmos uma situação verossímil, que relevância tem a unção do Presidente da República? Quase nenhuma. E pensar que somos um país onde até poucos anos o Planalto tinha capacidade comprovada de eleger as pessoas mais opacas e medíocres, até mesmo para ocupar o lugar mais alto do pódio político. Que importância – salvo como referência – pode ter hoje uma interlocução qualificada com um homem de gabarito como Fernando Henrique Cardoso, o último dos estadistas? Sob o ponto de vista de viabilização eleitoral, quase nenhuma. E mais: até políticos da ativa e com bom cartel, caso patente do governador de São Paulo, podem ter fôlego curto na hora de chancelar este ou aquele, o que fica patente com a atitude de João Dória que já não mostra pruridos em se projetar no firmamento político muito além do que planejara seu padrinho, Geraldo Alckmin, caso clássico das dicotomias entre criador e criatura. 

Se, portanto, o "establishment" está de pernas para o ar, eis um momento único na história recente das grandes nações para que haja uma rearrumação de cenário radical. Contrariamente a países que ficaram ao Deus dará ao cabo de insurreições que os relegaram à guerra civil (Líbia, Iraque, Afeganistão), as instituições brasileiras dão provas reiteradas de funcionamento. Embora tenhamos resvalado o abismo da cleptocracia, padrões mínimos de governança evitaram que nos tornássemos uma Angola, uma Nigéria ou um Gabão. Sequer o vírus mortal do populismo nos condenou às sandices e ao "melting down" que constatamos na Venezuela. Estamos naquela ala do hospital chamada de semi-UTI. Ela é alarmante para quem chega de ambulância, mas alentadora para quem saiu da UTI radical e viveu a angústia da incerteza absoluta. No mesmo clube que a África do Sul ou a Índia, sem os ranços da Rússia ou da China, temos de inventar para nós um momento francês. 

Amigo Luiz Felipe, despertei nesta sexta-feira quente em Estrasburgo disposto a lhe dizer que estou resignado ao fato de que nem eu nem ninguém o convencerá de que a vida se vive melhor sem os desgastes da exposição política brasileira. Ao rever o vídeo com sua bela entrevista no "Roda Viva" da semana passada, concluí que seria até absurdo que você desse as costas aquilo que se evidencia desde sempre como uma vocação. Aliás, no sentido etimológico da palavra, ela se traduz como "chamamento". Isso dito, talvez tenha chegado a hora de levar ao conhecimento da sociedade seu currículo e o acervo de trabalhos prestados ao Brasil pelo CLP. Bem sabemos que a apresentação de um candidato à sociedade quando de um pleito majoritário – e o momento exigiria dita ambição de você para que se configurasse uma renovação em bloco – não se traduz sem votos. Daí ter soado a hora do pensar pragmaticamente.    

É nesse contexto de fatos que se impõe antecipação e, numa linguagem que lhe é cara, alongamento de musculatura. E, independentemente da postulação que você possa vir a submeter ao eleitorado dentro de pouco mais de um ano, já passa da hora de estruturar um núcleo de formulação programática que teste um novo discurso país afora e, especialmente, em São Paulo. O mundo, Luiz Felipe, está cheio de propostas inovadoras que desafiam a todo momento a chamada sabedoria convencional. Ora, se ainda sequer esgotamos o acervo do que é trivial, o que não dizer das possibilidades imensas que se abrirão a partir do momento em que as ações se destravarem e formos com nossos próprios pés à procura de interlocução no Japão, no Vale do Silício, em Israel, na Dinamarca, nos Estados Unidos, na Estônia e na Índia? Seu entusiasmo começa a contagiar um número crescente de mulheres e homens de boa vontade. 

Avise quando for botar o bloco na rua que sei de muita gente boa querendo aderir. Aproveite o fim de semana. Eles vão ser escassos dentro de mais alguns meses. 

Um abraço, 

Fernando


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