Os irmãos Gupta

Ajay, Atul e Rajesh colocaram as fichas no futuro político de um histriônico político sul-africano chamado Jacob Zuma

Por Fernando Dourado Filho, de Kehl (Alemanha)

Ajay, Atul e Rajesh colocaram as fichas no futuro político de um histriônico político sul-africano chamado Jacob Zuma

O indiano Uttar Pradesh, colado ao Nepal, é um formigueiro humano onde vive uma população maior do que a do Brasil, o que faz dele o Estado mais densamente povoado do mundo. Foi lá em Sharanpur, ao pé da cordilheira do Himalaia, que o falecido Shiv Kumar Gupta concluiu que os horizontes para progredir eram limitados e, a exemplo do que já tinham feito milhões de seus patrícios, decidiu que criaria a família no exterior. Foi assim que, no começo dos anos 1990, chegou a Joanesburgo, na África do Sul, e preparou os filhos para voar o mais alto que pudessem, à imagem e semelhança do maciço montanhoso em cuja sombra cresceram. Capital noviça no concerto das nações, já que passara anos dele proscrita em função da política segregacionista do "Apartheid", Pretoria se via numa encruzilhada muito comum a países como o Brasil, a China e a Rússia. Qual seja, chegada a hora de destravar a economia, o momento era propício para quem tivesse coragem, visão e capacidade de articulação. A Índia natal, que viria a integrar o grupo que irmanaria essas nações sob o nome de BRICs, ainda era excessivamente regulamentada e misteriosa para se fazer dinheiro pesado. 

Foi nesse contexto que os irmãos Gupta se estabeleceram num distrito de Joanesburgo e lá abriram uma loja de venda e montagem de computadores. À frente do negócio, Shiv Kumar Gupta tinha os filhos Ajay e Rajesh. Já Atul, o mais novo, foi para o "mercado das pulgas" e lá se tornou vendedor de sapato. Empolgado, o patriarca costumava dizer que o continente se tornaria um dia a nova América. A tirar pelos progressos que fez o caçula, ele tinha razão. Pois só este tem hoje uma fortuna de US$ 7 bilhões, pouco mais de 20 anos desde a chegada modesta. Junto com os irmãos, construiu um império financeiro que emprega  4 mil pessoas e que açambarca desde linhas aéreas e comunicações até mineração de urânio e carvão. O irônico disso tudo é que tantos feitos não transformaram-nos num clã admirado pelo povo hospedeiro, entre os quais se contam milhões de indianos. Pelo contrário, os Gupta são hoje a família mais odiada da África do Sul e, desde o ano passado, outra coisa não tem feito salvo se defender de acusações de descarado tráfico de influência e das pesadas alegações de corrupção e lavagem de dinheiro. A exemplo dos irmãos Batista que, do outro lado do Atlântico, privatizaram o comando do Estado, eles também foram longe.

Assim sendo, se Joesley e Wesley apostaram alto no PT e em sua cúpula, Ajay, Atul e Rajesh colocaram as fichas no futuro político de um histriônico político sul-africano chamado Jacob Zuma, hoje presidente do país. Para criar um elo inquebrantável entre os interesses do clã com o gabinete presidencial, pinçaram o jovem filho do mandatário Duduzana Zuma, 35 anos, bon vivant e executivo da Manbegela Investments – um dos braços do grupo –, e o alojaram em rentáveis conselhos de administração. Chamado pelos irmãos indianos de bhai (meu irmão) ou Dudu (na foto estão, da esquerda para a direita, Ajay, Atul Gupta e Duduzane Zuma), o obediente rapaz passou os últimos anos a rodar mundo às expensas dos Gupta. Até quando atropelou e matou um pedestre em 2014, foram seus protetores que contrataram advogado com a mesma presteza com que providenciavam o conserto de sua frota de carros, as temporadas no Club Med das Ilhas Maurício ao lado de fulgurantes modelos e até um apartamento no Burj Khalifa, aquele prédio que mais parece uma vela náutica inflada de frente às águas tépidas do Golfo. Se a Sahara Computers é uma espécie de antessala do poder de Pretoria – e por ela transita a agenda presidencial –, também é certo, segundo informa Le Monde, que uma certa Thuli Mandonsela recém publicou um paper de título "A captura do Estado" em que se deslindam, apesar das pressões em contrário, os bastidores de mais um conluio do gênero. 

O que mais dizer? Ora, a exemplo do que ocorre no Brasil, é questão de tempo para que o empenho do Executivo passe a ser a mera preservação do mandato. Quanto aos corruptores, se tudo correr bem, é possível que ganhem as graças do Judiciário, pincem alguns dos centenas de e-mails que o "GuptaLeaks" publicou (veja mais detalhes aqui, em inglês) e salguem as penalizações que sopesarão sobre o incauto Dudu Zuma. Um dos casos mais evidentes pode vir a ser o que envolve a Transnet, empresa ferroviária nacional, que teria pago ao clã US$ 400 milhões em comissões em contrapartida à compra de locomotivas. Ainda segundo Pieter-Louis-Myburgh, no livro ainda não traduzido "The Republic of Gupta", da editora Penguin, os irmãos apostaram no bom cavalo e estudaram minuciosamente as fraquezas do Estado, a natureza da burocracia e quem da elite estava à venda. No dia 8 de agosto, o mundo deles pode balançar de vez se Jacob Zuma não sobreviver a uma moção de censura do parlamento. Enfim, são desdobramentos do que já vinha sendo enunciado aqui mesmo em "De Soweto a Atibaia", em post de março do ano passado (relembre aqui). Os desvios perpetrados no âmbito dos BRICs constituem de fato uma fração imensa da riqueza que o mundo gerou nas últimas décadas. Pena que tomaram vias tortas, o que de fato irmana os países desse bloco, para muito além das candentes diferenças culturais e pertencimentos civilizacionais de cada um. Os Gupta pagariam caro aos Batista por um pouco de know how em como se salvar das cordas na hora “H”.        


leia também

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: