Zelem por seus amigos

Não nos contentemos com a patranha da proximidade digital

Por Fernando Dourado Filho, de Freiburg (Alemanha)

Fernando Dourado Filho faz uma reflexão sobre as amizades virtuais

No bojo de um acontecimento brutal da semana passada – a palavra trágico define melhor a morte do professor Fernando da Mota Lima –, pensei bastante no fim de semana sobre os paradoxos que rondam a amizade nesse últimos tempos. E, como não poderia deixar de ser, vasculhei alguns dos escritos do grande intelectual pernambucano para entender o que podem ter sido suas aflições derradeiras e angústias insanáveis. Se por um lado, temos o privilégio de uma interconexão digital que nos permite usufruir da companhia quase presencial das pessoas que nos são caras ou com quem temos afinidades, não há como negar que há muito perigo nesse "quase". Como disse ele em texto intitulado sintomaticamente "Um mundo enfermo": "Grande parte da nossa doença individual, dos sintomas patológicos que sofremos, deriva de um estado de anomia e aridez espiritual que tem raízes socioculturais"

Conquanto reconheça que não há progresso sem crise, Fernando apontava os contornos especialmente nefastos da quadra que atravessamos atualmente: "Esta que vivemos, no entanto, é de uma aceleração e de uma profundidade sem precedente. No curto intervalo de uma geração ocorreram mudanças para as quais somos incapazes de nos adequar positivamente. Estamos doentes porque a sociedade está doente. E o mais grave é constatar que não sabemos o que fazer da nossa desorientação, do nosso desgoverno, do nosso mergulho sem âncoras em direção a um país cujo abismo não tem fundo. Sei que tudo isso que escrevo é deprimente, mas é real. Estou vivendo isso todos os dias, dentro e fora de mim. Quem quiser ou precisar, que se engane". E, numa evidência de que não via salvação para si, concluiu: "Desafio qualquer gênio ou deus a assinalar uma saída para o caos em que vivemos".

Embora sua presença nas redes sociais aparentasse trazer um alívio para a profunda solidão existencial que terminou por asfixiá-lo, a Fernando não podia passar despercebido um detalhe intrigante nesse panorama feito de muitas sombras e pouca luz: "O povão, regido pela alienação do rebanho, não está nem aí. Quanto mais o abismo se abre, mais fazem festa, se drogam, desprezam a realidade. Quanto à “elite" (...), ela escava ainda mais o abismo. O mais grave é a indiferença humana que se agravou, fruto da tecnologia digital. As pessoas estão cada vez mais solitárias e desamparadas. Por isso amam gatos e cachorros. Privados biologicamente de liberdade, estes são mais dóceis e servis ao nosso egoísmo. É isso aí. Deprimente ou não, é assim que grosseiramente percebo o mundo em que vivemos". Como não concordar com palavras de tão candente lucidez? No transcurso da primeira semana de sua morte, reeditar seu pensamento permanece uma forma de homenageá-lo pelas vias tortuosas da reflexão. 

Nesse contexto, é prudente zelarmos por nossos amigos, especialmente por aqueles que, às vezes sem qualquer sucesso, tentam emitir sinais de socorro. E que não nos contentemos com a patranha da proximidade digital. O caso de meu xará mais ilustre demonstra cabalmente que esta última é enfermiça e alienante. A dependência da conexão digital pode estar se tornando um mal tão ou mais grave do que o sedentarismo, o diabetes e a obesidade mórbida. É momento de lançarmos pontes uns em direção aos outros. É claro, na verdade, que já passa da hora. Como eu mesmo escrevi a ele no Facebook: "It usually is too early to think it is too late" (ou "Normalmente é demasiado cedo para acharmos que já é tarde demais"). Faltou-me, contudo, tirocínio para interpretar adequadamente a resposta lacônica que ele me mandou também em inglês: "I hope you are right" (ou “Espero que você esteja certo”). Ora, como ficou demonstrado por fatos e atos, já era demasiado tarde para pensamentos melosos. O círculo já se fechara em volta dele e as cravelhas do garrote tinham feito feridas profundas na alma.


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comentarios




Helga Hoffmann

Depressão é uma doença, que a CID 10, Classificação Internacional de Doenças tem como F32.9. Acho injusto culpar o mundo e Fernando Dourado ficar a culpar-se.

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