Polêmica sobre costumes na Arábia Saudita

Três coisas me chamaram a atenção por ocasião dessa vista exploratória à região

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala sobre polêmicas de costumes na Arábia Saudita

Deve ter sido por volta de 1982 que fui pela primeira vez à Arábia Saudita. Meu interesse então era vender lentes oftálmicas em Jedah e Ryad, a capital do Reino, já que os petrodólares permitiam que eles comprassem produtos acabados, o que nos propiciava uma boa margem de lucro. Se o modelo valia para a Venezuela e o Kuwait, por que não vingaria lá, justamente na maior potência do chamado "ouro negro"? Três coisas me chamaram a atenção por ocasião dessa visita exploratória à região. A primeira foi que praticamente não tive contato com os sauditas propriamente ditos. Todo o comércio estava nas mãos de libaneses ou palestinos. Os grandes potentados se preservavam para outro calibre de visitante. A segunda foi o fausto das instalações hoteleiras muito embora o ritmo morigerado ditado pelo Islã tornasse aquela semana uma das mais monótonas de minha vida. E a terceira foi uma cena de rua, numa espécie de galeria, onde um homem deu umas bordoadas numa mulher. Meu agente disse que se tratava da irmã que saíra desacompanhada sob alegações pouco consistentes. 

Tendo convivido com árabes do Golfo tanto na Inglaterra quanto na Alemanha, nada disso chegou exatamente a me surpreender. Eu sabia que quando estavam fora de casa, os rapazes relaxavam na observância dos costumes e da tradição, e as ocidentais achavam-nos até muito delicados e atenciosos. Independentemente do magnetismo e do poder transformador que o dinheiro exerce sobre algumas mulheres, sei que muitas falavam com genuína convicção. É evidente, contudo, que as coisas mudavam de figura quando eles se reinseriam no contexto cultural de que eram oriundos. De qualquer sorte, achei a cena da galeria meio degradante porque embora não entendesse o teor das palavras, dava para sentir que eram duras. E os safanões não davam margem a qualquer dúvida sobre quem detinha a palavra final. Já nos anos 1990, sei de jogadores de futebol que recusaram contratos polpudos na região por conta do isolamento de suas esposas com relação aos parâmetros normais da vida que tinham no Brasil ou na Europa. E assim o tempo passou com discretos avanços e alguns recuos.

Semana passada os ventos da discórdia votaram a revolver as areias quentes de um dos desertos mais ricos do mundo. Passada a visita de Trump e constatada certa tolerância das autoridades para com os rostos descobertos de Melania – a linda eslovena que é a primeira dama –, e a esplendorosa Ivanka, primeira filha de Donald com uma tcheca, as locais resolveram testar os limites do guardiões da fé. E como essas coisas obedecem a um comando sutil e espontâneo, uma rede social veiculou as imagens de uma moça em minissaia caminhando por uma das mais conservadoras regiões da capital. Desde então, as autoridades se empenham em deter o que seria uma escalada na degradação de costumes. Na Arábia Saudita, a abaya é obrigatória e não se podem abrir exceções, pois por onde passa um boi, passa uma boiada. É claro que muita gente se pergunta até quando vai durar tamanha repressão. Sou da opinião que não haverá mudança no território dito sagrado. O que acontece com mulheres sauditas em viagem a Genebra ou Londres, é outro capitulo, pois outro também é o estado de espírito.    

Como nordestino, só para não ir muito longe, lembro de que não era incomum namorarmos até as 23 horas e, praticamente com o consentimento das moças, sairmos em seguida para uma confraternização acalorada com mulheres que "faziam coisas que elas ainda não faziam". E que, se pensarmos bem, sequer queríamos que elas fizessem, sob pena de ficarem maculadas perante a sociedade, perante suas famílias e, segundo casos que eu vi, perante os próprios namorados. Na Alemanha, conheci uma dentista que casou com um turco e foi morar em Adana, perto dos confins da Síria. Lá chegando, segundo ela, o sujeito mudou da água para o vinho. De carinhoso e progressista, revelou-se conservador e rude. Tudo isso para mostrar a seus irmãos e parentes que não tinha se ocidentalizado apesar dos anos de estudo de engenharia e da esposa estrangeira. Ela precisou de coragem para se evadir certa madrugada, recuperar o passaporte e voltar para casa. Enfim, a moça da minissaia só está causando um rebuliço já bem disseminado desde sempre. Sob todos os aspectos, estou com ela. Mas o que é minha torcida perante a sharya?   


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