Quem é e o que pensa Gilberto Petry

Presidente que assume a Fiergs prevê que turbulência atual vai abrir espaço para um novo modelo de governança no país

Por Dirceu Chirivino

dirceu@amanha.com.br

Gilberto Petry assume presidência da Fiergs

A Federação e o Centro das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs/Ciergs) estão sob nova direção. Gilberto Porcello Petry assume, oficialmente, a presidência da entidade para a gestão 2017/2020, sucedendo Heitor José Müller após duas gestões consecutivas. Nesse período, ele também passa a administrar o Serviço Social da Indústria (Sesi-RS), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-RS) e o Instituto Euvaldo Lodi do Rio Grande do Sul (IEL-RS). A troca oficial de comando foi realizada nesta terça-feira (18), em cerimônia para 2 mil convidados no Teatro do Sesi. Participaram da solenidade o governador do Estado, José Ivo Sartori, e o vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Glauco José Côrte que também preside a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc).

No evento, Petry comprometeu-se a ser um porta-voz dedicado e esforçado do setor. Em seu discurso de posse, ele também destacou que a federação e o Ciergs são entidades que não se filiam ou se aliam a qualquer partido político. “Nosso alinhamento é com o setor industrial, com o desenvolvimento do Rio Grande do Sul e do Brasil, e com a ética e a decência nos negócios, especialmente para aqueles que digam respeito à administração pública”, afirmou, salientando que as dificuldades das empresas não são virtuais, mas problemas concretos que precisam ser resolvidos. Para Petry, o empresariado enfrenta uma lista de situações e imposições contrárias à produção. Entre elas, a enorme burocracia, a tributação elevada, o crédito seletivo caro, os juros elevados e o diminuto investimento na infraestrutura e logística. “Os empresários devem ser entendidos pela sociedade como pessoas que contribuem para o desenvolvimento econômico e social de uma nação. Não podem ser vistos como exploradores porque procuram auferir lucros em seus negócios. O lucro é a alavanca que faz surgir novos empreendimentos que irão gerar novos empregos e recolher novos impostos.”

No âmbito da governança política, Petry defendeu que a turbulência atual no país há de abrir espaço para um novo modelo e que os líderes no poder público devem enfrentar questões importantes como o número de partidos e ideologias, as coligações e o presidencialismo de coalizão, por exemplo. “Nosso modelo político se esgotou. Nesse processo, instalou-se uma confusão ou, no mínimo, sobreposição dos poderes constituídos”, comparou. “Da mesma forma, queremos uma nova governança econômica. Por isto, apoiamos as reformas da previdência, trabalhista e tributária. São modernizações imprescindíveis que integram o elenco de mudanças necessárias”, declarou. “Nos próximos três anos, vamos trabalhar intensamente no rumo das novas governanças política e econômica que ora propomos”, finalizou.

Heitor José Müller desejou sucesso ao novo presidente e um novo momento para o país. “Se houvesse o encontro do Estado Brasileiro com a Nação Brasileira, o nosso país, sem qualquer dúvida, seria imbatível. Espero que, durante a próxima gestão da Fiergs, o Brasil possa começar uma nova história”, declarou.  Ao representar o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, o vice-presidente Glauco José Côrte salientou que, nesses momentos de dificuldades, todos devem se unir. “A crise nos impede de crescer, mas não podemos nos render, permitir que ela tome conta e paute a nossa agenda”, disse. O governador José Ivo Sartori também comentou a necessidade de se agir mais coletivamente. “Não é hora de se pensar em nomes, partidos ou vaidades, mas em recolocar o Rio Grande nos trilhos com responsabilidade na gestão fiscal, maior eficiência e voltado para as áreas essenciais, desburocratização dos serviços públicos e valorizando mais o empreendedorismo e a livre iniciativa”, sublinhou.

Coletiva de imprensa
A indústria brasileira tem condições de competir com a dos principais países do mundo. Entretanto, o Brasil não deve esquecer o seu papel de protagonista na América Latina, por sua importância na região e pela pujança de sua economia. A opinião foi externada por Petry que concedeu entrevista coletiva, na tarde de terça, cinco horas antes da solenidade de posse. “O setor industrial indo bem alavanca o desenvolvimento do Brasil e do Rio Grande do Sul. Pode vir a fortalecer o Mercosul e a América Latina por meio de acordos bilaterais, missões internacionais e com um maior relacionamento com o mercado dos países latino-americanos. Não damos a atenção devida para a América Latina”, afirmou Petry.

Fora do mercado latino-americano, Gilberto Petry aponta como foco a consolidação de negócios internacionais com o Japão e a Alemanha. Em relação ao país europeu, o novo presidente da Fiergs lembrou que, em novembro, o Encontro Brasil-Alemanha, a ser realizado na sede da federação, deverá ser uma ótima oportunidade para empresários brasileiros e alemães buscarem maior aproximação, investimentos e parcerias.
Petry não arrisca prever quando o Brasil sairá da atual crise, provocada especialmente pela instabilidade política. “As empresas estão sofrendo, as despesas aumentaram muito”, declarou. Porém, ele percebe os primeiros sinais de reação na economia, e a indústria do Rio Grande do Sul tem participação fundamental neste contexto, por toda a sua inovação tecnológica, a capacidade de produção e a importância para o comércio exterior nacional.  Segundo dados do Ministério do Trabalho divulgados nesta segunda-feira, a economia do Rio Grande do Sul gerou 1,1 mil postos de trabalho formal no primeiro semestre de 2017. No país, a indústria de transformação foi o único dos quatro subsetores a apresentar resultado positivo. “Se o Brasil crescer entre 0,4% e 0,5% em 2017 já será um bom avanço”, acredita Petry.

Acompanhe, a seguir, as principais ideias do industrial sobre a economia e a situação atual do Brasil.

Situação atual do Brasil
A economia vem sofrendo há três anos. Desde o final do primeiro semestre de 2014 para ser mais exato. Naquela ocasião, a presidente Dilma afirmou que depois da Copa do Mundo a economia retomaria, que aquilo era só uma parada. Eu produzo bens de capital. O meu setor é o primeiro que sofre [os efeitos da crise] e o último a sair. E lá eu já começava a sentir. Aí eu falava aqui dentro da Fiergs e muitos industriais meus colegas não tinham o mesmo a dizer. Por qual razão? Porque tem coisas assim dentro de um processo de recessão. Você não pode deixar de consumir. Ou seja, você não vai parar de comer. Você não vai parar de tomar remédio. Então algumas empresas sofrem menos e outras mais. Esse processo recessivo começou a ter alguma melhora no primeiro semestre deste ano. Surgiu aquele entusiasmo das reformas que o governo apresentaria, que visariam dar uma situação fiscal melhor para o país e para o governo em específico. Então foi divulgada a gravação do Joesley Batista com o presidente Temer. Isso arrefeceu os ânimos do empresariado que ficou sem saber o que iria acontecer, pois se somavam as dúvidas: continua esse presidente? Temer deixa o cargo? Entra outro presidente? Essa indefinição faz com que o empresário não saiba qual o caminho a seguir, pois ele age em função das circunstâncias.

Economia
O trem da economia real anda em uma velocidade distinta do trem da política e do judiciário. Mesmo com a situação instável de hoje, nós, empresários, temos de gerar recursos para pagar as contas. Agora o Congresso entra em recesso. Imagine se quando as empresas tirassem férias, fosse informado que elas não precisam pagar as contas naquele mês. Quer dizer, o Legislativo entra em férias e atrasa as coisas e o trem deles então entra numa velocidade distinta da nossa.

Eu também olho muito as contas do governo. O Brasil está usando toda a poupança interna para financiar a sua própria máquina (estatal). O país apresenta atualmente um problema muito grave. Voltando ao passado, no governo Fernando Henrique, o país tinha superávit fiscal primário. Dava resultado fiscal positivo e sobrava para pagar os juros. No período seguinte, conseguimos empatar as contas e hoje estamos gerando déficit primário. O governo ainda emite papéis para renovar a dívida. E aí não sobra dinheiro para investir no desenvolvimento das atividades produtivas. 

Geração de empregos
Investimentos maiores dependerão da geração de empregos. A lógica é simples: quem está empregado fica com medo de gastar, pois tem medo de perder o emprego e quem está desempregado não tem de onde tirar para gastar. Mas quem tem emprego consegue suprir suas necessidades. Nós na indústria estamos fazendo um esforço no sentido de gerar empregos. Mas isso nem sempre ocorre. Depende muito da demanda dos consumidores, pois são eles que determinam se vamos ou não empregar mais gente. Acho que a resolução dessa situação é de suma importância para o país. Eu não estou entrando no mérito da questão, se é ou não fato. O que eu estou dizendo é que tem de resolver.

Quem é Gilberto Petry
O industrial Gilberto Porcello Petry faz parte das Diretorias da Fiergs do Ciergs desde 1986. Diretor presidente da Weco S/A – Indústria de Equipamento Termo-Mecânico, de Porto Alegre, também participa como dirigente ou conselheiro de mais quatro empresas no Rio Grande do Sul. É formado pela Ufrgs em Ciências Econômicas e Administração de Empresas. Na Fiergs e Ciergs coordenou, desde 1993, cinco Conselhos Temáticos, nas áreas técnica, de Relações do Trabalho, e Assuntos Legislativos. Atualmente, é vice-presidente da FIERGS e delegado representante da entidade junto à Confederação Nacional da Indústria (CNI). Desde 2001 preside o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico e Eletrônico do Estado do Rio Grande do Sul (Sinmetal).


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