Descaso, gafes e o futuro próximo

A China continua mudando de maneira muito rápida. Se não nos atualizarmos, ficaremos na poeira da estrada

Por Milton Pomar

Milton Pomar alerta: a China continua mudando de maneira muito rápida. Se não nos atualizarmos, ficaremos na poeira da estrada

Sempre que vamos à China, e a outros países com culturas muito diferentes da brasileira, corremos o risco de cometer "gafes" maiores ou menores, mais ou menos marcantes, algumas imperdoáveis. Até hoje ainda cometo algumas, por mais que me policie – e isso que vou à China com frequência há 20 anos.

Faço esse introito para relatar gafe cometida pelo prefeito de uma cidade importante com chineses aqui no Brasil, no início de julho. Daquelas que não podem acontecer, em hipótese alguma: a comitiva de lideranças políticas de uma cidade chinesa não ser recebida pelo prefeito da sua "cidade-irmã" brasileira. E o presidente da câmara de vereadores chegar muito atrasado ao compromisso, comprometendo as demais agendas da comitiva. Não sei os motivos de tais demonstrações de descaso, mas suspeito que tenha sido exatamente isso: descaso. 

Participei há muitos anos do estabelecimento das relações institucionais entre essas duas cidades. Sempre que posso, tenho ajudado nos trâmites das comitivas chinesas que todos os anos visitam a cidade, para estabelecer intercâmbios e prospectar negócios, e em alguns casos acompanhei comitivas em suas rápidas visitas. Constatei o descaso já da vez passada, por algumas gafes cometidas pelas autoridades municipais – superáveis, mas desagradáveis.

O preocupante nesse caso, e em alguns outros que ocorreram nos últimos anos aqui no Brasil, em grandes cidades de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul etc., que tive o desprazer de vivenciar, não é o descaso em si. É o que ele revela de falta de visão de futuro de governantes de grandes cidades brasileiras – inclusive capitais de Estado. Porque a manutenção de boas relações internacionais é fundamental para o desenvolvimento econômico e cultural de grandes cidades. E ao tratarmos com descaso representantes políticos e empresariais de cidades do país que é o maior parceiro comercial do Brasil, estamos passando qual mensagem para eles?

Todas as comitivas chinesas são preparadas com no mínimo três meses de antecedência. As que possuem integrantes de governos têm apenas seis dias para a viagem, tempo muito curto em se tratando de países do hemisfério sul. Por isso, costumam fazer périplos absurdos, muito cansativos, com visitas de um dia em duas ou três cidades no Brasil, e em mais algum outro país, normalmente Argentina ou Chile, e até os Estados Unidos... 

Há mais de 20 anos que as cidades e províncias chinesas enviam regularmente comitivas ao Brasil, para negociar e conhecer o país, tão diferente e distante. Há um investimento considerável nessa política. E eles se preparam para as viagens: pesquisam, pedem ajuda para os contatos e as cartas-convite e para a definição dos roteiros, e agendam com a máxima antecedência, justamente para garantir serem recebidos por quem lhes interessa. Por isso, deve ser mesmo muito frustrante, depois de meses de trabalho e expectativa, e de dois dias viajando, chegarem na sua "cidade-irmã" brasileira e não serem recebidos por seus anfitriões.

A China será a maior economia mundial, pela paridade cambial, até 2030. Até lá, o Brasil deverá voltar à sétima ou à sexta posição no ranking das maiores economias. Essa proximidade econômica dos dois países no futuro próximo poderá ser maior ou menor, do ponto de vista cultural e comercial, se trabalharmos melhor as relações entre as cidades e os Estados, estabelecendo e cultivando relações institucionais entre governos e outras instituições, governamentais e não-governamentais – universidades, parques tecnológicos, centros de pesquisa, entidades esportivas e culturais. 

O descaso não se justifica em hipótese alguma, evidentemente. Para mim, a explicação para ele persistir até hoje tem a ver com a falta de conhecimento sobre o país, que alimenta o inaceitável preconceito, ainda muito forte no Brasil, em relação à China e a tudo que lhe diga respeito. Quem estuda e acompanha a China sabe que ela mudou muito, desde 1980, e continua mudando, de maneira muito rápida. Se não nos atualizarmos e mudarmos em relação a ela, ficaremos na poeira da estrada...

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