O novo pastor

Queria me presentear com uma edição especial da Bíblia e disse que esperava que eu despertasse enquanto era tempo

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho conta a história de um amigo que se tornou pastor

Eu não sei bem se o fenômeno que presenciei se deve ao descalabro moral que assola o Brasil ultimamente ou se resulta de um apelo vocacional tardio, porém genuíno. Mas certo é que encontrei na última sexta-feira um amigo que não via já há muitos anos e cuja expressão brincalhona está intimamente associada aos anos de adolescência no Recife. Vê-lo em plena Avenida Paulista em recatada companhia foi uma grata surpresa. Ainda convidei-o para tomarmos um café na Livraria Cultura, mas disse que estava assoberbado de compromissos já que passaria o fim de semana imerso em programa de treinamento. Foi motivo a mais para que eu ficasse curioso e quisesse saber do que se tratava. Afinal, conheço tanta gente, moro aqui há tantos anos e tenho tanto prazer em ajudar quando possível. Percebendo que a conversa não terminaria por ali, a namorada dele disse que iria para o hotel para nos deixar conversar, e que o esperaria lá. De cabelos longos e saia no meio das canelas, cheguei a perguntar se ela era judia ortodoxa. Quase, disse ele. E então me explicou o que o trouxera a São Paulo. 

Aposentado do serviço público a que era ligado desde os tempos da faculdade, pensou seriamente no que fazer aos 60 anos. Com seis filhos de quatro casamentos e dois netos, vinha alugando uns poucos imóveis que adquirira para templos evangélicos de toda ordem. À custa de conviver com pastores, missionários e bispos, chegou à conclusão de que ele próprio talvez estivesse vocacionado para ser cabeça de sua própria congregação. Daí a viagem para São Paulo onde pretendia dar mais um passo na carreira de pastor. Já fora aprovado em estudos bíblicos, pregação e se sentia bem versado na história de Israel, país que visitou ano passado. Agora estava a meio caminho de entender os misteres do pecado e da salvação. Pretendia se aprofundar no Apocalipse e, didaticamente, me explicou que havia uma matéria sobre os profetas maiores e os profetas menores. Perguntou-me eu já lera os Evangelhos e, meio sem jeito, confessei que não. Balançou a cabeça com desdém e um pouco apiedado de minha sina. Então lamuriou-se com convicção: "Logo você, rapaz, um sujeito tão culto".

Lá fiquei eu, plantado na esquina da Ministro Rocha Azevedo enquanto ele me perpassava algumas noções sobre as "Carta de Paulo" e discorria sobre a beleza das "Missões Cristãs". Para atenuar os efeitos perversos de minha ignorância, ainda lhe disse que estava com primos na cidade e convidei-o para jantar conosco. Rindo com alguma piedade de meu mundanismo desenfreado, ainda me passou um sabão derradeiro: "A noite já não me traz nada de bom, amigo. Isso ficou para trás. A carteira minguava e o fígado inchava. Já era tempo de uma mudança fundamental, de me preparar para ser bom pai e avô. E, embora não tenha pressa, para garantir minha salvação na vida eterna". Até o fim de 2017, pretende abrir um templo para 200 fiéis no populoso bairro de Casa Amarela, no Recife. O filho mais velho abraçará a mesma missão em Abreu e Lima, ali perto. Pediu meu endereço para me presentear com uma edição especial da Bíblia e disse que esperava que eu despertasse enquanto era tempo. "Ou você acha que já é demasiado tarde? Pois saiba que Deus acolhe todos".  

Na verdade, eu tinha chegado do Recife apenas um par de horas antes. No intervalo entre o trabalho e o jantar da sexta-feira, eu só queria mesmo rever amigos queridos com quem não me avisto já há algum tempo e que, pelo que soubera, tinham voltado a se reunir na Cultura da Avenida Paulista, depois de uns meses acantonados no Suplicy. Mas então me ocorreu que já ficara tarde e que eu ainda tinha coisas a fazer. Se não para a salvação da alma assumidamente pecadora, pelo menos para o corpo. Depois de longa ausência, sequer sabonete tinha em casa. Muito menos cerveja ou salaminho. Desviei-me da rota e desci para o supermercado com as palavras de meu amigo ressoando. Pelo menos teria uma boa história para contar mais tarde a meus primos. O que é um jantar sem um bom repertório de casos fresquinhos? Na verdade, não deixa de ser divertido imaginá-lo de terno e gravata a pregar sobre a salvação das almas. Se não fosse incorrer em inconfidência gratuita, eu lhes contaria um pouco do que foi a vida desse ex-farrista inveterado. Melhor assim. Cada um sabe de seus caminhos.       

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