As limitações da meia-idade

O diabetes cruel não foi o preço pelo acerto no atacado da vida

Por Fernando Dourado Filho, de Óbidos (Portugal)

Fernando Dourado Filho trata das limitações da meia-idade

No último dia 20 de junho, meu pai teria completado inverossímeis 90 anos de idade. Mas, ao despedir-se da vida já aos 72, na crista da virada do milênio que só viu pela televisão, parece que dava a cota por bem cumprida. Não que o assumisse abertamente, mas lia-se a mensagem de despedida nas pálpebras semicerradas, no desdém com que ouvia as lideranças políticas e na maneira de franzir a testa, um cacoete que traía ceticismo e desânimo. Olhando em retrospectiva, ele teve a idade que tenho hoje, 59 anos, em 1986, o ano da Copa do Mundo do México. Tal como ocorre comigo, as alegrias fecundas estiveram ligadas ao cenário macro e não foram aquelas ancoradas na felicidade miúda do dia a dia, o que é um erro crasso. É claro que tinha prazer em comer uma rabada com agrião, tomar um bom vinho e conhecer gente inteligente, hoje evento muito mais raro do que então. Mas o que o empolgava era o debate de ideias, a Guerra Fria, e não propriamente o cachorrinho da sobrinha.

Fato marcante foi que na entrada da década de 1990 papai se descobriu diabético. Eis uma doença que o revoltou muitos degraus acima do que o infarto que o atraiçoara aos 50. Qualificava-a de uma enfermidade soez e sádica. Um dia apontou uma mesa farta na Itália, em algum lugar da Lombardia, e soltou o verbo contra a medicina, forma de se indultar da culpa que certamente sentia. Se seguisse a escrita científica, tudo ali lhe era proibido. Tudo mesmo, todos os sólidos e líquidos. Irritado, serviu-se de pão, mortadela, linguiça seca, polenta, vinho e, raridade, ainda mordiscou uma panna cotta. No banheiro, aplicou-se insulina na barriga com a discrição costumeira e, como nova praxe, recomendava até a desconhecidos verificar a glicemia. Nada afeito a viver com as limitações que se impunham, fixou-se um horizonte de uma década. Para agravar o isolamento, tinha demasiadas expectativas em terceiros – inclusive em mim –, fonte garantida de aborrecimentos.

Nesse contexto, apesar das arestas, fui seu invento mais prodigioso, nem por isso menos imperfeito. Da prancheta de seu laboratório de experimentos humanos, se é que podemos denominar assim a caricatura que fazia de si mesmo, saiu um navio cargueiro enorme propelido a vento e lenha. Este era eu. Estranhamente, como não canso de lembrar, não verti sequer uma lágrima na sua morte que, conforme a praxe, me colheu longe do Recife, na Nova Zelândia. Nas aldeias do Baixo Minho onde estava em seu aniversário, lembrei dele com ternura. E o faço em todas as regiões daqui de Portugal. Sobretudo quando vejo os capões parrudos nas feiras barulhentas, as gemas de ovo cor de laranja, as garrafas de aguardente velha, as alheiras lustrosas e as portuguesas maduras afogueadas a rodopiar de pandeiro na mão e saia colorida. Se duvidar, ele é minha companhia mais constante no palco deste mundo que me incentivou a conhecer. 

Concluo que o diabetes cruel não foi o preço pelo acerto no atacado da vida. A insidiosa caramelização do corpo foi, sobretudo, a fatura salgada pelos descuidos no varejo dos hábitos diários, lá onde se amoita o perigo.


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