Mistérios do Facebook

Encantou-me reatar contato na rede social com pessoas de quem já só lembrava vagamente

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Fernando Dourado Filho faz uma reflexão sobre o uso do Facebook

Hoje saí de Óbidos logo cedo para ter uma reunião aqui em Lisboa. Como boa parte das coisas que tentamos fazer nessa época do ano, foi pura perda de tempo e bem que poderia ter ficado trabalhando na pequena hospedaria, ao lado da Muralha. É bem verdade que estou um pouco incomodado com a quantidade de moscas que temos na região da bela Óbidos. "São os agricultores que colocam excesso de defensivos em suas culturas, o que termina forçando-as a vir para a cidade", comentou o dono do carro que me fez a gentileza de dar uma carona. É com ele que voltarei mais tarde. De qualquer sorte, como não existe viagem perdida, ouvi à hora do almoço um animado debate que se travava ao lado entre portugueses que discutiam vantagens e desvantagens de ter um perfil no Facebook. Alguns aspectos me pareceram bem originais e resolvi escrever sobre eles enquanto cai a tarde aqui na aprazível praça diante da embaixada da Alemanha. 

Como o espaço é limitado e se impõe não torrar a paciência do leitor, passarei ao largo dos tópicos mais consensuais sobre perda de tempo e ilusão de ocupação, para me referir a três outros que me pareceram mais instigantes. O primeiro será perguntar se o Facebook ajudou a expandir seu universo ou teria sido melhor não ter conhecido essa ferramenta. O segundo versará sobre a qualidade das relações que daí resultou. De seu grupo de amigos, quantos você já conhecia pessoalmente e quantos passou a conhecer, se é que isso aconteceu? O terceiro enfoca a flutuação inerente a esse mundaréu de gente que, de alguma forma, passou a fazer parte de sua vida digital. Dito de outra forma: você já brigou ou discutiu feio com alguém? Você percebeu em algum momento uma mudança de atitude das pessoas em relação a você ou vice-versa? Como você reagiu? Creio que com esses três pontos, temos panos para as mangas para uma discussão nos moldes da que me coube presenciar.

Respondendo o primeiro questionamento, não hesito em dizer que foi muito bom conhecer o Facebook. Embora ele tenha me propiciado uma sensação apenas ilusória de ruptura de solidão (mesmo porque eu preciso dela tanto quanto o ar que respiro), encantou-me reatar contato com pessoas de quem já só lembrava vagamente. É claro que não se operaram milagres de transformação a ponto de fazer de uma pessoa fria e distante, alguém convertido em caloroso e acolhedor. Mas algumas surpresas foram boas e estão se sustentando bem ao longo desses 16 meses em que estou no Facebook. Aprendi a escrever com mais concisão, a usar o smartphone para tirar fotos e, por incrível que pareça, minha sensibilidade às artes plásticas ficou muito mais aguçada. É claro que é um crime deixar de lado as boas leituras em favor dessa cachaça viciante de trocar pequenas mensagens com amigos de qualquer natureza. Trinta minutos pela manhã e uma hora à noite parece estar de bom tamanho. Mais do que isso: pode virar tóxico. 

No que concerne o segundo tópico – genericamente denominado a qualidade das relações –, admito que minha base de partida foi muita boa porque vivi em muitos lugares e o concurso de uma boa memória me facultou resgastes instantâneos, propelidos pelos motores potentes dessa engenhoca. Um amigo foi levando ao próximo e, a partir de certa hora, creio ter sido demasiado acolhedor ao aceitar novas solicitações de amizade. Como tenho alguma dificuldade em dizer "não", verdadeira praga nacional, terminei incorrendo no erro de engordar excessivamente meu universo. Embora seja muito trabalhoso eliminar as pessoas já incorporadas, faço isso regularmente de forma até a preservar de eventuais contaminações o núcleo com o qual tenho real identidade. De fato, sem quaisquer juízos de valor, tenho pouco a ver com quem simplesmente faz "clipping" do noticiário diário; assoberba as pessoas com juízos políticos ou divulgam cumprimentos acompanhados de imagens sacras de quaisquer religiões. 

Por último, a gestão dos humores desse grupo está além de qualquer tipo de controle. Sei mais ou menos quem vai se pronunciar, consoante eu fale de viagens, gastronomia, política, economia ou fatos diversos. Mas diariamente surgem comentários de gente nova e alguns dos veteranos parecem se cansar e, quando menos se espera, somem do mapa por meses, só mais tarde voltando a aparecer. Também já fiz muito isso. Por fim, lamento que algumas pessoas tenham ficado genuinamente perturbadas com minha exposição. Surpreendentemente, isso acontece com indivíduos de nosso círculo mais íntimo. Uma crítica recorrente é quanto ao fato de eu responder as mensagens que me chegam. Ora, como poderia ser diferente? Teria a sensação de deixar as visitas falando sozinhas na sala. Não fui educado para a aspereza. De qualquer forma, aprendi a lidar melhor com tudo isso graças às conversas e advertências que ouvi, mas que nem sempre acatei. Enfim, não vejo razão para abandonar esse prazeroso espaço. 


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