Quando tudo dá errado

Espero que essa arrancada em direção ao Natal possa nos trazer mais sorte

Por Fernando Dourado Filho, do Porto (Portugal)

Fernando Dourado Filho narra seu dia de azar em Portugal

Na quinta-feira fui dormir tarde para os padrões da Europa. Estava feliz, porém, com a recepção que demos no Café Literário da Chiado por ocasião do lançamento de meu livro. Confraternizei com os convidados e, chegando ao apartamento, lá na Boa Vista mesmo, ainda fiquei um tempo folheando os jornais e tomando um último copo de vinho. Logo cedo, porém, antes mesmo das 9 horas, a mocinha da recepção – nitidamente inexperiente e cumpridora do dever "by the book" –, bateu à porta para saber se poderia contar com o quarto até o meio-dia porque precisava sair e outros hóspedes estavam a caminho. Se eu queria dormir um pouco mais até as 11, ali mesmo se esvaíram meus planos. Mas será que fazia tanta diferença? Certo é que precisava mudar de hotel já que tinha opção mais barata e igualmente agradável na cidade. Fim de viagem é assim mesmo. Há de se apertar o cinto mesmo porque o Brasil é uma roleta russa e não se pode brincar com dinheiro suado. 

De mala pronta, rumei para a avenida à espera de um táxi que me trouxesse aqui para a chamada Foz Velha, onde me alojaria numa casinha térrea minúscula que me parecera simpática no site e onde jamais poderia dormir em paz no Brasil. O taxista se frustrou porque julgou que eu estava a caminho do aeroporto. Ora, uma corrida até meu novo endereço não chegava sequer a 10 euros. Mas diante da conversa agradável, ele logo relevou o erro de avaliação. Ficou feliz em saber que eu era brasileiro. E de tão feliz, cruzou o semáforo vermelho na altura de Serralves e um carro que vinha em velocidade precisou fazer um malabarismo incomum para que não nos colhesse pela lateral. Apesar de constrangido e pedidas as desculpas, seguimos viagem. Por estarmos falando muito do Brasil, ele esqueceu que deveríamos entrar à esquerda para o chamado Passeio Alegre. Afinal, levou-me para o número indicado na Avenida Brasil. Ora, como também sou morador de praia, achei tudo natural e saltei a três quilômetros do destino. 

Constatado o equívoco, lá tive eu que esperar por outro táxi, o que é difícil com uma mala pesada, onde colocara uns vinhos. Como o motorista também era verboso, tratei de cortar o bate-papo para que não tivéssemos nem colisões nem equívocos.  Chegando à casinha, constatei que não havia climatização e, tão grave quanto, o wi-fi não funcionava. Não preciso dizer do escarcéu que fiz por tão pouco. Depois de meia-hora de espera, lá me chega o proprietário preocupado. Sim, a rede sem fio de informática estaria em bom funcionamento desde que eu ligasse a tomada do roteador, por trás da televisão. Quanto ao ar condicionado, não havia. Mas ele tirou do armário duas colunas de refrigeração muito boas e arrematou: "Duvido que sinta calor com isto", afirmou. De fato, funcionavam muito bem e lá me meti a trabalhar num texto para o "Jornal do Commercio" quando, por descuido, toquei em duas teclas simultaneamente e o procedimento inadvertido, ditado pela pressa, me levou a perder o que estava perto do fim. Desolado, escrevi para o redator pedindo mais umas horas de prazo e suspirei fundo. 

Já morto de fome, e vendo o relógio bater as 15 horas, decidi que comeria nas imediações. Foi então que confiei na "Casa de Pasto Palmeira", já no virar da esquina. O fato de terem uma linda vista já me deixou ressabiado. Restaurantes com vista paradisíaca geralmente vendem vista, e não comida. Neles, é quase certo que se coma muito mal. Prefiro péssimas vistas, almoçar olhando uma parede, se for o caso, do que ver um rio que encontra o mar e miríade de barquinhos, como foi o caso. Pois bem, infelizmente eu estava com a razão. As "recriações" da casa eram pura história para boi dormir. Detestei as alheiras caramelizadas, fritas em forma de rolinhos primavera. A moqueca de polvo com cuscus estava um pouco melhor, mas cabia numa xícara de café pequeno. Terminei pedindo um "prego" – sanduíche de bife – para não desmaiar de inanição e ainda deixei 30 euros na mesa, três vezes o valor de uma dobradinha cheia de encantos e bom colesterol, feita à moda do Porto, nada longe de onde eu estava. Não, não era meu dia, pensei. 

Voltei para casa disposto a recuperar o caminho perdido e escrever o artigo do jornal a partir das informações objetivas que tinha sobre a economia europeia contemporânea. O sol estava a pino e eu bastante debilitado depois do almoço despropositado. Chegando à porta, me dei conta de que deixara a chave na mesa de trabalho, junto ao computador. Tive então de voltar ao restaurante de onde saíra xingando todo mundo para ter uma conexão wi-fi que me habilitasse a ligar de novo para o proprietário. Santo homem, lá veio ele lá do Bolhão para me salvar por uma segunda vez num lapso de horas. De volta à estação de trabalho, vi um filete líquido que saía da mala vermelha que deixei no corredor. Ao abri-la, não fiquei nada surpreso ao constatar que uma garrafa de vinho verde se espatifara horas antes, quando eu a colocara bruscamente no chão. A bolsa de remédios de toda sorte (para a pressão, para dormir e para o colesterol) estava encharcada. Ainda bem que a caixinha de Lexotan estava intacta. É para essas horas que serve. 

Depois de tudo isso, vou escrever para minha amiga e declinar das sardinhas de São Pedro em Matosinhos na noite de hoje. Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz, é o que se diz em minha terra. É verdade que eu sou péssimo seguidor dessa máxima. O problema é que o dia está longe de acabar e muita coisa ainda pode acontecer. Menos mal que foi o último dia de um semestre meio aziago. Até que não tenho tanto do que me queixar, mas o Brasil teve imensamente. Espero que essa arrancada em direção ao Natal possa nos trazer mais sorte. Mas hoje para mim foi um dia daqueles. Melhor não dar chance para o azar.  


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