Portugal naufraga diante do Chile

Um Cristiano Ronaldo só não faz verão. Aliás, pouco ou nada fez

Por Fernando Dourado Fº, de Peso da Régua, Douro (Portugal)

Fernando Dourado Filho narra, da Europa, a derrota de Portugal diante do Chile

Uns tomavam um Porto, outros preferiam um copo de tinto mais encorpado e outros ainda fizeram como eu e sorveram umas taças de espumante para poder acompanhar o jogo de alma leve, à altura do que mereciam dois contendores de peso. Nessa aprazível cidade do Douro, o silêncio reinava nas ruas porque o time nacional estava em campo, na expectativa de ser finalista da Copa das Confederações. Chegamos ao intervalo e com o placar apontando 0X0, e eis que o resultado permanecia em aberto pelo que mostravam os jogadores. Enquanto as mesas relaxavam e engrenavam conversas despretensiosas, próprias às bucólicas margens do rio, atentei para os ingleses que ocupavam a mesa atrás da minha. E para os alemães que estavam ao lado.   

É curioso como os povos quebram o gelo de forma diferente quando conterrâneos se descobrem no exterior. No caso dos britânicos, pois bem, gastaram a pausa discutindo meteorologia. Estavam surpresos de constatar que a temperatura aqui no vale é de aprazíveis 22º, ao passo que nas zonas mais altas, lá pelas bandas de Vila Real, temeram pelo pior já que o termômetro do carro marcava 16°. E isso para não falar da chuva que vez por outra aspegia as parreiras para logo sumir dando lugar a um sol luxuriante. Não, em momento algum perguntaram de onde uns e outros eram, muito embora os sotaques fossem nitidamente do norte do Reino. Sua excelência a meteorologia, contudo, reinou soberana de uma ponta a outra. Com direito a recidiva à hora da partida. Incrível. 

Auxiliando pelo outro ouvido, acompanhei o bate-papo dos alemães e também me diverti. Povo dado à precisão rigorosa, ponto em que se irmanam aos portugueses, o assunto do intervalo não foi outro senão apontar as discrepâncias que encontraram em algumas cepas de Alvarinho, lá pelas bandas do Minho, de onde acabavam de voltar. Louvaram, outrossim, a presteza com que tinham sido atendidos por toda a gama de prestadores de serviços, o que conferia pontos extras à pátria lusa. Uma senhora de bochechas vermelhas e que parecia vestida de camisola não hesitou em dizer que de todos os povos latinos da Europa, os locais eram de longe os mais bem preparados. Tanto em habilidades linguísticas quanto no momento de explicar serviços, produtos e o funcionamento das coisas. "A Itália tem muito a melhorar. E os espanhóis e franceses nunca tiveram modos", exagerou. 

O jogo retomou e as portuguesas que estavam ao balcão não hesitavam em demonstrar revolta com o que diziam ser a deslealdade da seleção chilena. Uma delas se referiu aos sul-americanos como a esquadra onde jogam os cinco jogadores mais feios do futebol mundial. Prestei atenção ao detalhe e não tive como lhe tirar a razão diante de penteados de arrepiar e as tatuagens mais escabrosas que já se viram nessa vida. O tempo regulamentar chegou ao fim e não se saiu do 0X0, com Cristiano Ronaldo isolado no ataque e os baixinhos do Chile aqui e acolá mostrando um talento fenomenal, apesar de inconclusivos. Até que o Chile botou duas bolas na trave e o locutor da televisão quase sucumbiu a uma síncope, não poupando o treinador português de ter sido infeliz nas substituições. O 0X0 da prorrogação só fez confirmar que a letalidade estava do lado chileno, especialmente perto do fim. 

Nos minutos que antecederam a cobrança dos pênaltis, ingleses analisaram os céus e ensaiaram se retirar diante do perigo de chuva. Os alemães tentavam demonstrar simpatia pelos locais, mas diziam que o "certo" seria que os chilenos ganhassem, dado o desempenho que tiveram ao longo do jogo. Quando Quaresma fez a primeira cobrança, estava claro que seria um chute medíocre. Portugal começava a descer a ladeira. O segundo cobrador repetiu o fracasso e o terceiro idem. O silêncio então dominou o ambiente enquanto os chilenos cobravam com raiva, alegria e precisão. Os alemães se congratularam discretamente por ter acontecido a coisa justa. De mãos dadas com minhas divagações interculturais, voltei para o hotel com a última luz do dia. As ruas estavam vazias e duvido que voltem a se animar nessa quarta-feira de junho. Mas amanhã será outro dia. Um Cristiano Ronaldo só não faz verão. Aliás, pouco ou nada fez.


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