Um passeio pela Vila de Prado

Ao atravessar a Ponte de Prado, fico a pensar como seu José passou os últimos anos de vida

Por Fernando Dourado Filho, de Barcelos (Portugal)

Ao atravessar a Ponte de Prado, fico a pensar como seu José passou os últimos anos de vida, escreve Fernando Dourado Filho

Normalmente é assim. Quando as pessoas pensam que as esqueci de longa data, eis que a maioria delas permanece bem viva em minha memória. O contrário infelizmente também é verdadeiro, o que se revela vexaminoso em certas ocasiões. Pois alguns que acham que vivemos fatos tão marcantes a ponto de eles não me saírem da cabeça, por uma razão ou outra já se evaporam há muito e tenho dificuldade de rememorar as passagens que lhes são tão claras. No terreno das relações amorosas, onde isso pode incidir com maior rigor, tal falha é dificilmente perdoável. Assim são os mistérios da mente de que se faz a vida e a construção desses labirintos onde nos perdemos. Digo tudo isso a propósito de uma breve visita que fiz à Vila de Prado, ao lado de Braga, Portugal, local de nascimento e infância de um homem com quem trabalhei durante uns poucos anos e que me deixou doces lembranças, para não falar de um importante cabedal de aprendizado.   

O nome dele era José de Souza Machado e deveria estar entrando nos 60 anos quando fui trabalhar na fábrica que ele fundara, na Via Anahangüera, em Osasco, São Paulo. Foi meu primeiro empego e eu deveria ter à época uns 23 anos. Seu José e o irmão mais jovem, de cujo nome já não me recordo (eis logo aqui um caso típico de amnésia inexplicável), eram nativos dessa Vila do Baixo Minho, e comandavam uma fábrica de lentes para indústria oftálmica que nasceu como uma das mais expressivas do Brasil. Contavam com orgulho que tinham começado como proprietários da ótica Vera Cruz no centro da cidade. Depois tinham passado a distribuidores para, por fim, se tornarem industriais. Era nítido o orgulho que tinham dessa trajetória, especialmente o irmão mais velho, a quem eu me sentia funcionalmente mais ligado. Sendo Machado o sobrenome, e Prado a Vila de onde vinham, não hesitaram em batizar o empreendimento de Macprado. 

Rodando mundo como gerente de exportação da empresa – toda a América Latina, Oriente-Médio e alguns países da Europa –, não era raro que me perguntassem se a empresa era escocesa em razão do prefixo clássico do nome. Então eu explicava a interlocutores surpresos a história que eu julgava bonita. Ela compunha o berço mesmo de uma narrativa. Seu José gostava de rememorar a infância e a pobreza em que vivia o Portugal de então. Felizmente, viveria o bastante para ver seu amado país tomar outra feição. Nada que se compare ao que é hoje, bem longe disso, mas já nos anos 1980 ele vinha aqui com frequência e a cada regresso me dizia: "Olha, seu Fernando, que aquilo lá está que é uma beleza". Então falava das estradas impecáveis e dos ganhos de infraestrutura que se faziam visíveis. Vez ou outra saíamos para comer um bacalhau no restaurante do Supermercado Sé e tomávamos vinho verde. Nessas tardes, ele não voltava à fábrica que gostava de percorrer todo dia. 

Certo é que seus concorrentes nem sempre gostavam de ver os bravos portugueses dando as cartas do mercado. Acostumados ao rigor, eles também sabiam ser rigorosos e competia a mim vocalizar algumas de suas políticas, o que não era fácil, se levarmos em conta minha pouca experiência. Sentimentos vários me perpassam o espirito sempre que passo na pista e lá vejo a fábrica, a caixa d´água e o logotipo que resiste ao tempo e cuja bandeira desfraldei por alguns anos em diferentes países. A quem será que pertence hoje? O que é feito dos bons amigos que fiz por lá? Imagino-os aposentados. Ao atravessar a Ponte de Prado (foto), limite entre Braga e Vila Verde, fico a pensar como seu José passou os últimos anos de vida. Se aqui ou lá em São Paulo, terra a que sempre fora tão grato. Visitando o rincão a que se referia como sua aldeia, rendo homenagem também ao rapazinho que fui e que, ele também, ficou para trás para sempre. Ali, ao pé do pico do Jaraguá, não sabia que vivia os melhores anos da vida.


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comentarios




Davi

Linda matéria. Obrigado por falar um pouco do meu pai, pois até então pouco conheci a vida de quem tenho tanto carinho e muito respeito, como o senhor José de Souza Machado.

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