A festa de São João em Braga

O evento, sinceramente, está riscado de meu calendário. A cidade, não

Por Fernando Dourado Filho, de Braga (Portugal)

Fernando Dourado Filho conta sua decepção com a festa de São João em Braga, Portugal

Gosto de dar boas notícias. Especialmente aquelas que desafiem as pessoas a sair de seus casulos e se aventurar em descoberta mundo afora. Eu mesmo saí de Lisboa e Coimbra e vim cá para o Baixo Minho para ver um São João que, não sendo famoso como o do Porto (aqui pertinho) é tido como menos grandioso, logo mais intimista e menos comercial. Como nordestino, adoro o São João. Durante certo período de minha vida, curtia-o mais do que o próprio Carnaval e muito mais do que o Natal. Pois bem, cheguei à bela Braga pensando em comer chanfanas e alheiras nas barraquinhas de rua. Não deu certo. O que tenho pois a relatar dessa experiência será, dessa vez, deveras decepcionante. Isso porque tem limites para o apetite do lucro que devemos suportar e as municipalidades deveriam ser mais criteriosas ao conceber o plano de suas festas. Vamos aos fatos. 

Todo o centro dessa linda cidade está ostensivamente poluído de uns portais que mostram a imagem de São João e o cordeirinho em todas as cores. A falta de parcimônia foi tamanha que, ao longo de alguns quilômetros – todas as ruas somadas – temos um portal desses a cada 25 metros, tamanho de uma piscina semiolímpica. O fornecedor desses adereços, de par com bandeirolas e quinquilharias do gênero, deve ter ganhado uma fortuna com esse projeto extravagante e de mau gosto. Como se isso não fosse por si só muito grave, as tais barraquinhas nada oferecem de regional: 80% delas servem algodão-doce, maçã do amor, amendoim confeitado e, pasmem, churros. É a maior churreria a céu abeto do mundo. O cheiro enjoativo da fritura se mescla ao adocicado dos irmãos caramelizados e é quase impossível suportar uma caminhada pela rua de pedestres que leva ao café "A brasileira". 

Muito pior do que tudo isso, é o enorme camelódromo de produtos de quinta categoria que invade ambos os lados do passeio público. Meias, cuecas, sutiãs, carregadores de celulares, Budas em gesso, óculos escuros espelhados, sapatos, cintos, tênis, bolsas de couro, secadores de cabelo e louça ordinária fazem companhia a brinquedos vagabundos como vuvuzelas de som insuportável e martelos plásticos que apitam – para não falarmos de armas automáticas em plástico, produto este que já dava por banido no mundo civilizado. Não pensem que havia um só toque de regionalismo interessante ou um só adereço que pudesse lembrar o local onde estamos. Nada. Os trailers de churros são imensos e  muito iluminados, feitos certamente em série e prontos para vagar de cidade em cidade onde quer que haja uma quermesse para ser frontalmente descaracterizada. Chego a duvidar que isso seja bom para o comércio, mesmo o mais predatório. 

No átrio da lindíssima Sé, chineses faziam conta de seus lucros, e é melhor mesmo que alguém se dê bem nessa paródia de festa regional. Braga pode ter certeza de que mesmo as pessoas mais afeitas à emoção barata e gratuita dos dias de hoje certamente se ressentiram imensamente da falta do toque local. Para não dizer que nada vi de aproveitável, algumas fanfarras fizeram bonito. Foi o caso de "Os Zés P´reiras das Antas", da cidade de Esposende. Uma lição me ficou de tudo isso, porém. Já não adorara nada o Santo Antônio de Lisboa, mas ainda passou. O São João de Braga, sinceramente, está riscado de meu calendário. A cidade, não. Recomendo que se apure com vigor um dia a quem responsabilizar pelo delírio coletivo de enfeiar um local tão encantador com adereços apelativos e sem qualquer vestígio de bom gosto, por mais que este seja subjetivo e pessoal. Bola fora, Portugal. Pelo menos uma.  


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