Perda total

Sob o manto de uma pretensa fragilidade, urde-se um complô criminoso que resvala para a propalada alienação parental

Por Fernando Dourado Filho, de Salamanca (Espanha)

Sob o manto de uma pretensa fragilidade, urde-se um complô criminoso que resvala para a propalada alienação parental

Tem coisas que a gente só lê no barbeiro. Foi o caso de "Filho refém", de Walcyr Carrasco, crônica publicada numa revista Época de um ano atrás. Um pequeno trecho me chamou a atenção a ponto de achar oportuno compartilhá-lo aqui. "Mesmo furiosa, com motivos justos para se sentir traída, mal amada, a mulher erra quando joga com os sentimentos de pai e filho. Pior que para o ex, será para a criança. Como vai reagir emocionalmente, no centro de uma guerra entre pai e mãe?". Ora, isso vem bem a propósito de um rápido bate-papo que tive com o amigo Cassiano (vamos chamá-lo assim) que encontrei no aeroporto. Feitas as perguntas de quem não se via já há 20 anos, perguntei-lhe sobre Joaninha (idem), filha dele, de olhos bem azuis e cabelos louros como os da família do pai, descendente de alemães. Com expressão de dor, ele disse que ela falecera em 2014 num acidente de carro. Mas que praticamente não a vira depois de crescida. Como assim? Mais refeito do susto, pedi que me explicasse.  

Pois bem, a mãe ficara tão inconformada com a separação que aceitou os limites vis impostos pelo novo namorado. Um deles era que criariam Joaninha longe dos olhos de Cassiano. E que implodiriam explicitamente quaisquer pontes de aproximação. Ele ainda tentou por um lado, tentou por outro até desistir. A distância geográfica era grande e ele não queria se engalfinhar num combate desigual. Era aspirante a pai, não a herói. Tampouco era de berrar por afeto. Nessa toada, casou e teve um filho. Esperaria até que ela crescesse e se libertasse dos juízos prontos, movidos pelo tóxico do ciúme e da inveja. Pois bem, ela virou adulta, mas não se desvencilhou do entulho cerebral. Um dia, recebeu o telefonema fatal: Joaninha morrera. Para muitas mães, filhos são reféns, passíveis de pedido de resgate. Grande, imensa e imperdoável estupidez. Incapazes de enxergar adiante do imediato, sucumbem aos imperativos fáceis do ódio. E negligenciam os dividendos duradouros do bom senso. Mais tarde, quando as crianças se tornam adultas, então afloram as disfunções. Cassiano sequer viveu isso com a morte prematura da filhinha.  

Resolvi me aprofundar sobre o tema. E resgatei cada uma das palavras que ele disse no longo depoimento que me deu.  Quando o caldo entorna, disse ele, as mães telefonam, melífluas, e se fazendo de tolas, concitam o pai a se aproximar porque o que antes era opcional, agora virou imperativo. A filha está precisando. Mas geralmente será muito tarde para recomeçar. Pois mesmo diante da tragédia, Cassiano reconhece que o cimento afetivo já estava corroído e já não teriam repertório de vida a compartilhar. “Se nada mais tinha a dizer à filha, mal nenhum faria em perguntar à ex-esposa o que ela tinha ganhado com prática tão torpe?”, questionou quando nos preparávamos para partir.

Que fique, pois, o alerta para muitos pais que possam estar vivendo o mesmo drama que ele viveu por décadas. Pois sob o manto de uma pretensa fragilidade, urde-se um complô criminoso que resvala para a agora propalada alienação parental. E nesse ambiente conflagrado, assacam-se injúrias e difamações. Nos despedimos com um longo abraço, prometendo que nos reveríamos qualquer hora dessas. Ele deve ler o artigo de Walcyr Carrasco para que não se sinta tão só no drama que viveu. 


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