O imenso legado de Helmut Kohl

Ele foi a prova bem viva de que política se faz com sensibilidade

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Fernando Dourado Filho fala do imenso legado de Helmut Kohl

Antes da inverossímil queda do Muro de Berlim, uma visita à antiga República Democrática Alemã era uma experiência que marcava. Quem saísse de Berlim Ocidental e se aventurasse ao outro lado, traria invariavelmente a impressão de que retroagira no tempo em muitas décadas. Mais do que isso, voltaria com o sentimento de que fazia face a um primado de regras inquebrantáveis posto que o avalista da ordem da Guerra Fria era Moscou, o que conferia uma ilusória sensação de solidez àquele arranjo que cindia um povo. O surpreendente é que ninguém – nem político nem intelectual – adiantara até então a hipótese de que o Muro em questão um dia seria parte de um passado distante e, sobretudo, de que não tardaria para que isso acontecesse. Como conclusão preliminar, podemos perguntar: quem disse que estadistas e professores encerram as verdades do mundo? Helmut Kohl foi a prova bem viva de que política se faz com sensibilidade e não só com o crânio.  

Sem o carisma, o brilho e a solidez de seus antecessores – particularmente do trio formado por Konrad Adenauer, Willi Brandt ou Helmut Schmidt –, o corpulento Kohl e seu sotaque de província vieram ao mundo para atestar que nem tudo que é ouro tem de reluzir. Tendo perdido um irmão querido durante a Segunda Guerra, engajou-se cedo na militância política e conseguiu se mostrar um articulador de rara habilidade. Foi na tessitura de relações interpessoais interna e externamente que consolidaria as bases da chefia de um governo que durou mais de década e meia, a segunda mais longeva desde Otto von Bismarck. Quem conhecia as fronteiras silenciosas de Hof, na Baviera, com Plauen e Zwickau do outro lado, lá onde se encontravam dois países do leste e a República Federal da Alemanha, há de ter tirado o chapéu para aquele homem aparentemente desambicioso, falecido na manhã de hoje ao cabo de uma longa e profícua vida. 

Se Margareth Thatcher foi a única grande líder europeia a olhá-lo de soslaio, fiel à sua máxima de que gostava tanto da Alemanha que preferia continuar a ter duas, o mesmo não se pode dizer de Mikhail Gorbachev que encontrou no alemão um parceiro à altura para dar cabo de um sistema que agonizava. Não fora uma pragmática "Ostpolitik" – de que ele não fora sequer o criador já que assentada desde Brandt –, o colapso da URSS poderia ter tomado a dimensão de catástrofe humana insanável, tanto dentro quanto fora das fronteiras da Rússia e do império. Da mesma forma, foi em Kohl que Bush reconheceu o aliado de que precisavam os Estados Unidos para consolidar uma hegemonia ocidental, ao constatar que estava diante de um dos maiores expoentes de liderança genuinamente europeia, quando há muito a Alemanha só suscitava preocupações e reticências em Washington. Liderança inverossímil, mas efetiva. Sem ter muito de carismática, foi prova viva de que política é sobretudo "praxis" e jeito.  

O maior momento de Kohl, contudo, talvez tenha sido o pontificado ao lado de François Mitterrand, presidente da França. Superando velhas rusgas que dividiam as duas potências separadas pelo rio Reno e muito mais, ambos afiançaram o Tratado de Maastricht, o que referendou a criação da União Europeia, a pedra fundamental para o advento do Euro e do Espaço Schengen, garantindo pelas vias da união monetária e abertura sistemática de fronteiras, o que o alemão via como o passo mais transcendente rumo a uma paz duradoura nessa ponta do continente eurasiano. Foi Helmut Kohl quem discursou em Dresden diante de um atônito Putin – então acantonado lá como funcionário da KGB –, levando a mensagem de que estava refundado o "Vaterland". De há muito afastado da política, e maculado no final por pequenos escândalos que respingaram sobre doações de campanha, a História fará justiça ao grande homem. E a Europa rende homenagem a quem sonhou grande e enxergou longe.


leia também

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: