Todo dia é domingo

Voltei ao hotel pensando nas segundas-feiras de ressaca brasileiras que acontecem diariamente

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Fernando Dourado Filho fala de sua mais nova passagem por Lisboa

A semana foi fértil em surpresas. Na quinta, no Café Literário da Chiado Editora, mal comecei a falar por ocasião do lançamento de meu livro, eis que vi os dois casais que adentraram o recinto com ares de quem comparece a uma festa. O primeiro era formado por um velho e querido amigo, um desses caras a quem me liga um vínculo tão forte que nossa amizade resiste a décadas de separação. A ver-nos quase aos 60 anos, mais parece que voltamos aos 30 e que estamos à porta do consultório dele, nas Perdizes, em São Paulo, nos idos dos anos 1980, quando nos conhecemos. A esposa dele, igualmente adorável, eu só vira umas poucas ocasiões, mas tem também o dom da beleza interior, o sorriso solar dos olhos que faíscam e do amor à vida. Como poderia ser diferente? Lembro bem quando o filho dele era recém-nascido. Hoje tem 30 anos, imaginem.    

O outro casal era formado pelo irmão e cunhada dele. Mas ora, o primeiro também tinha ares de que já conhecia há muito tempo. Sabedor da amizade que me unia à família, me acolheu como se eu fosse próximo de toda uma vida. Quanto à esposa dele, para minha extrema alegria, é uma velha conhecida de São Paulo, mulher que meio Brasil admira pela competência e simpatia. Sabia que ela casara em segundas núpcias, mas não imaginava que as voltas que o mundo dá a fizera cunhada de Abrão. Pois bem, o sarau literário correu de maravilha. Quanto mais eu via a plateia que se formara, mais me sentia à vontade para abraçar digressões sem fim sobre meus livros – origem, motivação e possíveis desdobramentos de uma carreira literária que exigirá todas as forças, mas que pouco mais pede do que perseverança e, secundariamente, talento.  

Findos os trabalhos e muitos livros autografados mais tarde, resolvemos sair para oferecer-nos um jantar à altura do que pedia a ocasião. Tamanha era a ansiedade em conversar que foi penoso até nos dividirmos em dois táxis para chegarmos ao restaurante adorável onde o irmão de Abrão, agora residente em Portugal, vai regularmente com a esposa, minha velha amiga. Já no bar, enquanto tomávamos um espumante estalando de gelado e comíamos lascas de presunto cru com deliciosos peixinhos da horta – linda denominação –, Abrão emendava uma piada na outra e sequer os garçons que vinham nos servir ficavam imunes a ataques de riso. Pois contar histórias é mais um dom desse paulistano de alma nobre que, ademais de dentista, é também ator inspirado e vem de longa trajetória nos palcos, atividade que ama e meio onde é querido. 

Os pratos eram impecáveis: sopa de tubarão azul, posta de garoupa, plumas de porco preto e açorda de bacalhau. Um bom tinto alentejano fazia as alegrias de metade da mesa ao passo que o calor externo me tentava a manter a hidratação à base de espumante, um velho hábito. Quando alguns já olhavam as sobremesas, eis que o irmão de Abrão descreveu longamente as delicias de viver em Lisboa: os passeios no parque da Estrela, a segurança absoluta que permite que todos possam caminhar pelas ruas sem temer a própria sombra, a renovação permanente do panorama cultural lisboeta e a proximidade das demais capitais do continente, que visita regularmente. Pode-se querer mais? Na expressão dele, remanescia, contudo, um traço tão forte quanto todos: o Brasil já o vinha cansando. Exaurindo. Desgastando. Fazendo mal. Ponto. 

Sensação quase inevitável em milhares e milhares de membros de minha geração, a lassidão que provoca a recorrência do panorama político-econômico brasileiro não o exime de acompanhar de perto o que se passa no país. A mudança para cá data de um ano e ainda não parou para pensar em quanto tempo pode durar o exílio dourado. Mas vendo a felicidade estampada em cada gesto, desconfio que é mais prudente contar revê-lo nas ruas de Lisboa do que na Avenida Paulista. Infelizmente, o fenômeno está cada dia mais repandido. Quem apagará a luz? Homem de longa trajetória profissional e que honra a tradição de trabalho da família, ele concluiu com sabedoria diante de minha pergunta: "Fernando, sabe que dia é hoje? Pois bem, para mim é domingo. Ontem também, aliás, foi domingo. E amanhã será domingo de novo. Portugal é tão bom que para mim todo dia é domingo". 

Caminhei de volta ao hotel com a frase a martelar. Na verdade, pensando nas segundas-feiras de ressaca brasileiras que acontecem diariamente. Quem diria?   


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