Abravanel e suas filhas

Ele não se ressentiu da falta de herdeiros homens para ocupar os espaços que legará

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Fernando Dourado Filho tece comentários sobre Silvio Santos

Li dia desses que Senor Abravanel, o Sílvio Santos, incorporou a seu "cast" a quarta filha (são sete, no total). O que vale dizer que praticamente todas as demais já ocupam um lugar na grade de programação do SBT, o canal de televisão popular que ele já tem há décadas. Octogenário, na verdade não canso de admirar-lhe o pragmatismo e o gosto pelo trabalho. Se é bem conhecida a tradição empreendedora dos judeus do Mediterrâneo Oriental – tão numerosos no Brasil e grandes expoentes nas finanças e na construção civil –, alguns fatores no apresentador o distinguem de forma especial e é sobre eles que gostaria de comentar hoje, nessa quarta-feira de sol em Lisboa, a cidade que a Europa e o mundo parece ter adotado como sua, depois de ter sido por anos a preferida de brasileiros, e pouco mais do que eles. 

Pois bem, Silvio Santos merece o respeito devido a todo mundo que se inventou a partir de muito pouco. Como ele mesmo alardeia, começou a vida como camelô nas barcas que ligavam o Rio de Janeiro a Niterói e daí foi galgando degraus. Se sua fórmula de juntar entretenimento massificado com comércio pode parecer a alguns algo ladina, eu sinceramente nunca vi grande dolo em entreter o circo que ele montou com engenho e, certamente, um mínimo de astúcia. Neófito na seara política, em que professa primarismo crasso, embora seja bastante sagaz na hora de defender seu quinhão, por certo que ninguém guarda boas lembranças do período em que ele divulgava a agenda de generais-presidentes como forma de agradar àqueles que eram então os donos da bola. Mas de novo, nada vejo que o macule sobremaneira ao defender como podia sua plataforma. 

Outro ponto que talvez galvanize adesão mais espontânea é que ele tenha sido – ou seja, melhor dizendo – um pai tão presente na vida das filhas. Embora essa não seja uma característica marcante da tradição greco-turca de que ele provém, elas parecem ter recebido estímulos deliberados para ocupar espaços na vida de forma plena. Se é bem verdade que toda família tem seus bastidores, e alguns deles permanecerão inescrutáveis para o olhar público, parece ser claro que ele não se ressentiu da falta de herdeiros homens para ocupar os espaços que legará. Ademais, soube fazer com que elas desenvolvessem aptidões tanto para a tela quanto para a gestão. Isso não quer dizer que ele próprio não tenha conhecido percalços, como mostra o caso do Banco Panamericano. Do episódio, contudo, o que ficará terá sido o desprendimento com que se desvencilhou de um abacaxi. 

Sem querer me alongar sobre uma vida já muito documentada e de que só conheço os contornos gerais, sempre tive a impressão de que ele se pauta por uma conduta muito correta no plano dos valores pessoais. Muitos anos atrás, quando um ator vivia os meses de agonia de uma doença incurável, ele fez questão de prodigalizar gestos que não se dispensam a moribundos, especialmente quando estes não mais terão vida física, muito menos televisiva. Gosto de pensar que esse código de conduta evidencia uma ancestralidade virtuosa, própria de uma linhagem de banqueiros que já era ativa nos tempos do Império Otomano. Cultivar a virtude em estado puro, especialmente quando esta vem dissociada de pruridos intelectuais, é fator que engrandece quem o faz. Abraço essa visão com fervor e entusiasmo e não creio incorrer em erro.  

Por fim, acho que ele esta sabendo envelhecer. Aferrado à vida no que ela tem de fundamental - o amor ao trabalho, à simplicidade e aos que o cercam -, gosto da forma irreverente como fala de si e da capacidade que tem de rir de suas próprias mazelas. Por mais que depreciar-se quando fala de calvície ou da virilidade integre a composição de uma "persona" que o público consagra, algo me diz que aí também reside a tal sabedoria ancestral a que me referi mais acima. Na verdade, o Brasil anda muito carente de modelos de virtude e, decididamente, não acredito que eles emanarão da televisão ou de celulares. Pois tudo isso é mera indústria. O que não me impede de louvar quem se fundou muito cedo e vem repetindo os mesmos mantras há meio século. Que suas filhas sejam muito felizes, acho que é isso o que ele mais deseja.         



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