Os prefeitos CEOs II

E o Brasil, precisa de um presidente ou de um administrador?

Por André D´Angelo

E o Brasil, precisa de um presidente ou de um administrador?, questiona André D´Angelo

Semana passada falei dos prefeitos com perfil gerencial de algumas cidades brasileiras (leia aqui). E embora saudasse seu surgimento, terminei o post com um alerta: o de que a boa governança não é panaceia para a coisa pública no Brasil. E explico por quê. O motivo fundamental é banal: governos não são empresas, e disso derivam várias consequências. Fixo-me em duas.

A primeira, a de que a vida empresarial prescinde, muitas vezes, de diálogo e negociação, visto que a vontade do CEO basta para que as coisas sejam aceitas e realizadas. A administração pública, nem tanto. Por mais que não se concorde com as ideias daqueles que exercem pressão sobre o Poder Público, elas precisam ser ouvidas. Decidir monocraticamente ou se encastelar é um bom caminho para perder apoio e legitimidade, como parece estar acontecendo na Secretaria da Cultura paulistana (veja aqui) e na de Educação, em Porto Alegre, ao menos no que tange à mudança dos horários das escolas locais (confira aqui). Sim, a democracia dá trabalho e várias vezes é menos eficiente administrativamente, mas não há como passar por cima de seus rituais. 

Ainda nessa linha, cito o segundo motivo. O risco do prefeito CEO é, exasperado com o ritmo e os ritos da administração pública, apegar-se ao voluntarismo para ver seus objetivos cumpridos. Ou seja, fazer, fazer e fazer, deixando pouco espaço para o planejamento e para a avaliação do que se realiza. Na administração pública municipal, especialmente, velocidade é importante para solucionar problemas simples, como buracos de rua e sinaleiras apagadas, e não complexos – ao contrário do que pensa e exige João Dória, segundo o que se lê na imprensa. Problemas complexos, aliás, com os quais dificilmente um gestor privado tem de lidar, e para os quais as soluções mais objetivas, rápidas e aparentemente resolvedoras não raro são as piores, como sugere ter sido o caso da “cracolândia” paulistana (leia aqui e aqui).

Daí que um certo ceticismo seja bem-vindo quando se fala em alçar um prefeito CEO à presidência da república. Entender que “o Estado é um prestador de serviços” cuja obrigação é “fazer valer o dinheiro de nossos impostos”, como escreveu recentemente Joel Pinheiro da Fonseca na Folha de S. Paulo (veja aqui ), parece-me uma definição bastante razoável para um administrador municipal, não para o comandante-em-chefe de uma nação. Nesse aspecto, mais adequada é a assertiva de que “não basta colocar um gestor competente. O que a gente precisa é de bons políticos”, de autoria justamente de um dos melhores CEOs do Brasil, Roberto Setúbal, do Itaú (matéria completa aqui).

Em resumo: os prefeitos CEOs merecem crédito e apoio, na minha opinião. Mas não amplo, geral e irrestrito. A cautela e o espírito crítico são fundamentais para que, mais do que gestores travestidos de políticos, daqui para frente tenhamos mais políticos com pegada de gestor – o que é bem diferente. 


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