Os prefeitos CEOs

Tudo o que as cidades precisam é de um gestor?

Por André D´Angelo

André D´Angelo debate o fenômeno dos prefeitos CEOs como João Dória

Se, como dizia Peter Drucker, “não existe país subdesenvolvido, e sim subadministrado”, não é de duvidar que não existam cidades ruins de se viver, e sim mal geridas. Essa parece ter sido a convicção dos eleitores de alguns municípios brasileiros, no pleito do ano passado, e da capital argentina, Buenos Aires.

Refiro-me à leva de prefeitos com perfil mais gerencial do que político que domina a cena em São Paulo (SP), Porto Alegre (RS) e Caxias do Sul (RS), especialmente, além de na já mencionada capital portenha. Nem todos são completos outsiders, como o paulistano João Dória (foto), mas fizeram questão de pautar suas campanhas por um discurso mais pragmático e objetivo, à la executivos, ao menos se comparados aos candidatos tradicionais. Nesses primeiros seis meses de mandato, alguns episódios tornaram-se notórios na tentativa de passar a imagem de que as prefeituras estão sendo tocadas como se fossem empresas.

Dória é o mais prolífico desses personagens. Polêmicas de sua gestão podem ser encontradas aos montes na internet: aumento do limite de velocidade nas marginais, intenção de privatizar  equipamentos públicos, pedidos de doações de companhias privadas para órgãos da prefeitura (veja aqui) etc. Um resumo parcial de sua administração pode ser lido aqui e aqui. Aliás, a polêmica envolvendo o político com a Amazon (leia aqui) motivou a revista AMANHÃ a debater em sua próxima edição, que também trará o encarte com a tradicional pesquisa Top of Mind RS, a estratégia das marcas que adotam causas. 

Nelson Marchezan Jr., de Porto Alegre, cumpriu mandatos de deputado estadual e federal antes de assumir o Paço Municipal. Não faz o estilo demagogo nem eleitoreiro; não é carismático nem conciliador. Sua vitória não deixou de ser uma surpresa, inclusive. Já anunciou que os salários dos funcionários públicos municipais serão parcelados, cogita privatizar a companhia de ônibus local e faz questão de anunciar que pegou uma cidade “quebrada” financeiramente e que um duro ajuste nas contas públicas será necessário.

Daniel Guerra, em Caxias do Sul, foi executivo do Bank Boston e militou na política local. Ganhou notoriedade ao cobrar de um médico gazeteiro o comparecimento ao trabalho em telefonema filmado por sua assessoria (acompanhe aqui).

Em Buenos Aires, o prefeito Horácio Larreta, ex-braço direito do atual presidente argentino Mauricio Macri, abriu um escritório da prefeitura em meio à maior favela da cidade, a Villa 31, de onde despacha alguns dias da semana. No melhor estilo “conheça seu cliente”, Larreta quer aproximar o Poder Público dos moradores da Villa, ganhar-lhes a confiança e desenvolver políticas mais direcionadas às necessidades dos seus habitantes (saiba mais aqui).   

Simpatizo com os prefeitos CEOs. Primeiro, por um certo “corporativismo”, visto que como administrador acredito que todo e qualquer empreendimento humano, seja público, seja particular, beneficia-se dos históricos princípios de planejamento, implementação e controle prescritos pela atividade. Já escrevi isso em outro post: a gestão é a mais avançada tecnologia criada pelo Homem (relembre aqui) e dela deveríamos fazer uso mais frequente. Muitos dos nossos problemas de produtividade seriam solucionados com a boa e velha padronização de procedimentos, por exemplo, coisa que estudantes de primeiro semestre aprendem em uma faculdade de administração ou de engenharia (e que um especialista em educação flagrou recentemente como um calcanhar-de-aquiles brasileiro).

Segundo, porque a lógica gerencial encontra nas prefeituras o melhor espaço para seu florescimento, uma vez que se trata do primeiro patamar da administração pública, responsável por aquilo que afeta a população no dia a dia: limpeza das ruas, iluminação, transporte coletivo, trânsito etc. Não são elementos necessariamente fáceis de gerir em grandes cidades, nem imunes à influência dos cenários estadual e nacional, mas, por serem os mais operacionais, permitem fazer prevalecer um certo tecnicismo que, em outras áreas, de maior complexidade, nem sempre são viáveis. 

Porém, não sou ingênuo de acreditar que a gestão é a solução de todos os males nacionais, nem mesmo dos municipais – e disso falo no post da semana que vem. 


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