Mudança de padrões

Já não enxergo em deputados e senadores os embriões de estadistas ou aspirantes a tal

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho já não enxerga em deputados e senadores os embriões de estadistas ou aspirantes a tal

No começo do milênio, a aprazível Barcelona integrava meu circuito de viagens de trabalho a cada dois meses. Quando chegavam as sextas-feiras de primavera no escritório vetusto do edifício Vitalicio, na esquina da Gran Via, muitas vezes eu voava para Minorca – a mais calma das ilhas Baleares – e lá passava um fim de semana lendo bons livros e curtindo a água cristalina do Mediterrâneo. Era um descanso merecido e uma celebração à energia da juventude. Ao entardecer, no pequeno passeio que dava acesso à praia, vi de uma feita um sujeito muito forte, com a musculatura toda definida e trajando uma sunga sumária. Corpo besuntado de óleo, levava à boca um canudo-mangueira para manter-se hidratado ao passo que um assecla carregava um pequeno balde de um isotônico que ele sugava continuadamente. Era como se ambos operassem o abastecimento em pleno voo de uma fortaleza sedenta por combustível. O ridículo da cena me desconcertou de vez quando o vendedor de cerveja, grosseiramente e sem que eu nada tivesse perguntado, disse que o colosso era um homossexual conhecido na ilha: "Es un maricón perdido, señor". 

Ora, aquilo para mim era novidade. Embora a informação maldosa não fizesse grande diferença na minha forma de ver o mundo, certo é que eu jamais poderia ter imaginado que aquele fisioculturista fosse gay. Ao se cuidar com aqueles extremos, talvez à custa de esteroides e anabolizantes, o resultado era todo o contrário. Com semelhante forma, pensava eu, que espaço sobraria para a voz anasalada, os meneios de quadril, os volteios de mão, as roupas coladas ao corpo e as sobrancelhas depiladas? Ora, estes eram os atributos de marca que eu guardava deles na minha infância. Não, não era mais assim, informaram-me. A moda agora pedia tipos viris que, não obstante as aptidões para a estiva, também soubessem agarrar-se a uma barra e dublar Donna Summer, se tivessem aptidão artística. Nada de maria-chiquinha no cabelo ou de adereços cor de rosa para realçar a feminilidade, como ditava o estereótipo que eu guardara de cidades do interior nos anos 1960. Pois bem, estava vivendo e aprendendo.      

Extrapolando o raciocínio, a mesma quebra de paradigma me levou a rever conceitos quanto a nossos parlamentares. No começo dos anos 1980, no final da ditadura, quando vivi em Brasília, eu almoçava na Câmara dos Deputados quase todo dia e acompanhava a sobrecarga de trabalhos nas comissões, no plenário e nas negociações diuturnas que eles faziam com os pares. A impressão que eu tinha era que travavam um embate árduo e sem trégua. Conhecia muitos políticos de perto e, mesmo quando não me inspiravam a mínima simpatia ideológica, tínhamos que respeitá-los pelo denodo com que se entregavam a uma nobre missão de costura política. Pois tudo gravitava em torno do bem do país. Cheguei a presenciar discussões acaloradas e um ou outro embate físico. No centro, quase sempre, havia uma concepção de ver o mundo. De alguns anos para cá, contudo, também me vejo obrigado a ver as coisas sob um ângulo diferente, tal como acontecera em Minorca. E por menos que isso tenha sido só no Brasil – isso porque a classe política é mal vista na maioria dos países –, é daqui que nos interessa falar.    

Assim sendo, a essa atura dos acontecimentos, já não enxergo em deputados e senadores os embriões de estadistas ou aspirantes a tal que via naqueles tempos. Mais do que o que se passa na maioria dos parlamentos do mundo, o estamento negocista brasileiro que muitos deles formam se assemelha paulatinamente a uma bancada de despachantes federais de inspiração administrativo-mercantil, na acepção mais pura do termo. Confrontados com óbices que eles próprios podem criar, empenham-se em sair à busca de clientes e oferecer serviços voltados ao azeitamento de negócios privados à custa da facilitação pública. Nesse contexto, há disputa renhida por grandes contas, tal como se dá no mundo real. Daí se perceber um subtom de desprezo do empresariado (mesmo o de extração mais vil) por esses mesmos políticos. Explica-se. Quem mais se disporia a hipotecar o bilhão público de muitos ao milhão para o próprio bolso?  Que pretexto mais insincero do que aqueles ligados às nefandas ajudas de campanha? Sim, estamos todos a rever conceitos. Daí poderão sair, inclusive, boas surpresas. E bons políticos na fornada de 2018. 


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