Zé Carioca, personagem síntese

Sinto saudades dos tempos em que ele era uma criação tão absurda que parecia irreal

Por Fernando Dourado Filho de São Paulo (SP)

Fernando Dourado Filho fala sobre Zé Carioca, personagem criado por Walt Disney

Sempre que estou no Recife nas noites das quintas-feiras, vou com alegria à tradicional Reunião dos Primos, uma noitada boêmia onde se mescla o melhor da conversa mundana com o exame de algumas das pautas que permeiam o Brasil e o mundo. Como acontece em todo grupo testado há muitas décadas, o saldo do nosso bate-papo é fecundo e a diversão é garantida. Semana passada, repassamos o quadro agônico que o Brasil passara a viver desde a véspera, tornando inevitável o mergulho na perquirição sem fim sobre onde começaram nossas mazelas de país destrambelhado. Enquanto os mais sisudos sugeriam uma incursão a Gilberto Freire, Sérgio Buarque ou Antonio Candido, alguém disse que a alma fundadora de nosso país era, na verdade, o papagaio Zé Carioca, malandro parido no hotel Copacabana Palace pela graça e gênio de Walt Disney. Foi então que acionei o motor claudicante da memória para trazer à baila as reminiscências que me deliciaram durante tantos anos. E, mais uma vez, parece que meu primo tirou um coelho da cartola.  

Pois bem, nas histórias em que figurava, Zé Carioca passava inevitavelmente por situações recorrentes que, por previsíveis que fossem, eram hilariantes. O primeiro traço era o da ojeriza ao trabalho. Importante para ele era despertar o mais tarde que pudesse, descolar um almoço de graça, vagar pela cidade à procura de um trouxa em quem aplicar um golpe, descolar uma graninha e fazer jus ao bônus de mais um dia de lazer sem a mínima prestação de qualquer tipo de serviço, salvo raro biscate em que a recompensa era desproporcional ao esforço. Quando este acontecia, quase sempre era pelas mãos do urubu Nestor, o parceiro-irmão, com quem fazia planos mirabolantes. Da confraria desse universo figurava ainda o Pedrão, não raro objeto de golpes do papagaio cuja meta era comer sua suculenta feijoada de graça ou mesmo afanar do trabalhador as mercadorias da horta. Outro deles era o inofensivo Afonsinho, uma espécie de inocente útil que se prestava a ser "laranja", e os sobrinhos Zico e Zeca, observadores orgulhosos e preocupados das diabruras do tio famoso. 

O segundo traço identitário determinante era a relação que o papagaio tinha com a maviosa Rosinha, uma linda moça da alta sociedade, filha do milionário Rocha Vaz. Apaixonada pela alma pândega do namorado, ela de tudo fazia para que ele parecesse (não que se tornasse) alguém mais respeitável perante a família e, vez por outra, o casal entrava em crise por conta do estilo de vida malandro do pretendente. Somem-se a isso as situações de adultério e de histórias mal contadas em que ele era pilhado. Apesar de frequentemente confrontado com a mentira e o esbulho, ele sempre dava um jeito de se safar e a noiva se contentava com meias verdades para logo perdoá-lo e reaparecer no próximo capitulo crédula e apaixonada. Fazia isso com tal devoção que terminava por ajudá-lo a esconder-se da temida ANACOZECA (Associação Nacional dos Credores de Zé Carioca), implacável na busca desse devedor que dava calotes na praça, especialista em escapar pela porta dos fundos e descer em carreira dos morros onde buscava abrigo, a um sinal de alerta.  

Ora, seria simplória e reducionista a tese de que estamos diante de um mito fundador do caráter nacional, cujo padrinho supremo é, para muitos, Macunaíma. Mas gosto de pensar que Zé Carioca deu um empurrãozinho a brasileiros de muitas gerações a pensar criativamente, por assim dizer. O mesmo se aplica ao Tavares, personagem de Chico Anysio, um malandro rodrigueano que namorava com uma milionária apelidada de "Biscoito" – a atriz Zezé Macedo era impagável no papel. Sempre com um copo de uísque na mão, urdia golpe atrás de golpe e, confrontado com a canalhice da própria imagem refletida no espelho, confessava: "Sou, mas quem não é?". Isso dito, temos lá fora um país que sangra. Para onde olharmos, quer seja na direção de antigos "campeões" do setor privado quer seja para paladinos da vida pública, o Brasil procura equilíbrio no meio da borrasca. Os credores se juntam à porta e se contam aos milhões, como os de Zé Carioca. No fundo, sinto saudades dos tempos em que ele era um personagem tão absurdo que parecia irreal. 

Na verdade, os irreais somos nós.    

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