A JBS sai das cordas

Se está patente que o Brasil tende a soçobrar numa turbulência amarga, os irmãos Batista deverão sobreviver bastante bem

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Desde a delação de Sérgio Machado vem se cristalizando no Brasil a consagração das provas incriminatórias deliberadas, quando não induzidas. Se isso não exime o presidente Michel Temer de responder pelas graves acusações trazidas a lume na capital na noite da última quarta-feira, certo é que os fatos não podem ser apreciados se não contextualizarmos como funcionam empresários empenhados em salvar a própria pele. No caso dos irmãos Batista, há de se salientar o desassombro dos filhos de seu Zé Mineiro que, sem perder um só minuto, se safaram de um xeque-mate iminente que poderia lhes custar muitas vezes mais do que a multa bisonha que o noticiário alardeou na sequência da divulgação dos fatos. Assim sendo, se está patente que o Brasil tende a soçobrar numa turbulência amarga, os irmãos Wesley e Joesley Batista deverão sobreviver bastante bem. Nesse tópico, duas outras figuras despontam como emblemáticas da chamada sabedoria caipira. 

É nessa moldura que vêm à baila os ensinamentos do comandante Rolim Amaro, fundador da TAM, e o não menos famoso Olacyr de Moraes, outrora conhecido como o "rei da soja". No caso do primeiro, foi gritante a sagacidade com que ocupou os vácuos operacionais da Varig e, mais tarde, também da Vasp. O segundo, conhecido mais pelas belas modelos com quem circulava na noite paulistana do que pelas apostas audazes e visionárias que fez em favor do escoamento de grãos do Centro-Oeste, exalava a esperteza serena do mundo rural. Segundo o biógrafo Thales Guaracy, em "Um sonho brasileiro", ele articulou um divertido pacto de solidariedade com Rolim. Quem deles falisse, faria jus a uma mesada do outro. Com isso, este poderia manter um modesto padrão de vida e sobreviver às flutuações das relações conspícuas com Brasília, sempre ela. Quando perguntei ao comandante num bate-papo em Congonhas se o acordo existia, ele sorriu: "Quem vem da roça também sabe lidar com a capital, ora essa. O mundo é dividido entre lentos e rápidos".

Para crescer e criar impérios, todos eles souberam se prevalecer da simbiose com o governo, o que não impedia Rolim de viver com a corda no pescoço, fato que o levava à Irlanda para negociar os contratos de "leasing" da frota com o hoje famoso Mr. Ryan que o recebia de cara fechada. Rolim não somente livrava-se do arresto dos aviões, como também de lá saía com um financiamento renovado para o aluguel de outros tantos. E ainda arrancava um sorriso do irlandês. Pois bem, no caso da JBS quem visse os irmãos Batista anos atrás, não imaginava que voariam tão alto. Fiéis ao figurino "come-quieto", voltavam do almoço palitando os dentes e castigavam o português a mais não poder. No faroeste a que está reduzido o Brasil, contudo, de novo eles estão levando a melhor. Derrubarão um governo, farão um IPO nos Estados Unidos em liberdade e ainda se sairão como a palmatória da nova ordem. É a força do Brasil do campo, convenhamos. Entrementes, triste país. Quando retomaremos o rumo, se é que já soubemos o que era isso?  

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