Sobre ser gordo

A centralidade da comida faz com que as horas passadas em restaurantes tenham alimentado alguma gula

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho fala sobre ser gordo

Tenho uma amiga que diz que o sobrepeso tem a ver com a afetividade mal resolvida. Como negar que isso faz todo sentido? Quem não ama, e não se sente amado, pode mesmo tentar equilibrar as coisas à mesa, devorando demorados churrascos e tomando cerveja em tal profusão que mais parece que o mundo vai acabar no dia seguinte. Sim, é bem possível. Até pensei: será que é o meu caso? Não que eu seja excessivamente gordo, o que se explica mais abaixo. Mas com quase 1.90 metro, qualquer dez quilos que perca já me bastam para usar as roupas de três anos atrás, e então tudo melhora num passe de mágica. Mas o ponto de partida aqui não é a silhueta, e sim a hipótese formulada por Sílvia.   

Pensando bem, não saberia dizer se me enquadro à perfeição com o sujeito carente de afeto. É claro que sempre cabe mais – a gula de um gordo se espraia por outros domínios além da mesa –, e pouco importa se a vida foi pródiga nesse terreno, tendo proporcionado a chance de conhecer mulheres muito especiais que sempre deram mais do que eu merecia. Seja como for, é importante conhecer alguns traços psicológicos que, pelo menos no meu caso, valeram vigorosos puxões de orelha do médico em episódios ortopédicos recentes. Dos tais fatores, isoladamente, nenhum é determinante. A combinação deles é que é explosiva. Sem qualquer base científica, vamos enumerar os mais gritantes. 

a) Sua excelência, o sedentarismo – Tiro por mim. Há quatro anos, estava em forma bastante aceitável. Isso porque fazia boa parte de meus trajetos a pé. Tudo que estivesse compreendido entre Pinheiros e o Itaim, ao longo da Faria Lima, era parte do circuito pedestre paulistano. De mais a mais, chegava a descer a pé da Avenida Paulista até o Shopping Iguatemi, ao lado de minha casa. Quando tive de me mudar para a parte alta dos Jardins, contudo, para um dos trechos mais íngremes, comecei a me deslocar de carro. Saí, portanto, dos espaços horizontais e estaquei diante da topografia acidentada. A preguiça paulistana se espraiou por outros destinos frequentes, inclusive os de praia. Foi uma pena. 

b) Ansiedade antecipatória – A expressão não é minha, mas de um médico. Ouvindo meus planos sobre a profusa produção literária, ele me perguntou a razão de tanta aplicação. Ora, disse eu, em 2018 completo 60 anos. Já é uma idade respeitável. Não quero morrer sem deixar um legado sobre o que vi e aprendi. Outras gerações virão e talvez minha experiência possa ajudar as pessoas da mesma forma que, quando jovem, eu teria gostado muito de ter encontrado conhecimento estruturado e já pronto sobre meus domínios de competência. Daí essa ansiedade que me leva a acordar de madrugada para escrever. Escrever só depende de mim. Sobra menos espaço para cuidar do corpo, o que é outro erro.

c) Comida – Como não falar dela? Certo é que desde sempre associo a próxima escala à gastronomia. O paladar é uma coisa que se desenvolve muito cedo. E na casa de meus pais, sempre foi ponto de honra. Ainda criança, conectava toda viagem a um determinado prato. Isso me acompanhou vida afora a ponto de eu ter dificuldades de estabelecer empatia pessoal com quem come só para matar a fome. A centralidade da comida, contudo, faz com que as horas passadas em feiras, mercados e restaurantes tenham alimentado alguma gula. Não é tanto que coma errado – não sou de doces ou fritura –, senão que termine comendo muito. Dito de outra forma, é importante dividir os prazeres com mais senso de harmonia. 

d) Viver só – Homens que vivem com esposa e filhos, ou que estão encastelados em núcleos familiares onde todos metem o bedelho na vida alheia, são instados a se cuidar de forma mais vigilante. Existe uma certa pressão do bem, uma conspiração coletiva para que não coma aquele último pedaço de pizza nem abra um vinho tinto a mais, o que equivale a dizer que logo esvaziará a garrafa. Já homens que passam sós a maior parte do tempo são rebeldes ao que consideram intromissões, o que intimida os que eventualmente ventilam o tema da moderação. Com medo de passar por chatos, silenciam. E a fatura da balança só faz subir. É nessas horas que ganham a reputação de pessoas difíceis e inabordáveis. 

e) Dissonância cognitiva – Nem sei se a expressão é mesmo essa, mas ela me agrada. Funciona assim: da mesma forma que as anoréxicas acham sempre que estão dois quilos a mais do que o devido, mesmo quando lhes vemos todos os ossos do corpo, alguns gordos se acham belos. Conseguem ver a obesidade nos outros, mas são indulgentes consigo mesmos. Fazem a barba com um sorriso de satisfação para a imagem refletida no espelho, se borrifam com after shave como se dessem tapinhas de carinho num bumbum de bebê e cumprimentam as pessoas no elevador com alegria e galanteios. Quando crianças riem ou choram em reação à sua presença, gargalham magnânimos mesmo porque gordos são generosos. 

f) Fuga para frente – Configurado um quadro crônico de sobrepeso, instaura-se um processo interno de barganha. Eivado de auto-engano e desejo protelatório, o gordo registrará em algum lugar que um atleta morreu de ataque cardíaco e lerá um charlatão que defenderá a tese de que a população obesa em determinada ilha está menos propensa a derrames cerebrais do que os esbeltos. Tudo será pretexto para deixar o momento da verdade para depois, para mais adiante. Sublimando as angústias que decorrem da censura coletiva a quem ocupa o lugar de dois nas filas, o gordo vai se entocar num mundo de livros, acepipes e pequenos prazeres. À noite, na solidão do quarto, tomará um remédio para que a perspectiva da morte não o amedronte. 


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