Minha mãe

Para ela, não basta expedir uma ordem e vê-la materializar-se. Convém ditar o método de executá-la

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Fernando Dourado Filho lembra da sua mãe

Há Dez anos, escrevi o texto abaixo para a edição impressa da revista AMANHÃ. Relendo-o hoje, vejo que continua muito atual. A única diferença é que mamãe completará 85 anos, talvez em melhor forma do que estivesse quando da publicação dessa crônica. Para a alegria de todos os que gravitam em torno de seu magnetismo e charme.  

"Mamãe é uma jovem de 75 anos, muito aprumo, apurada beleza e levemente hipocondríaca. Mas quem não é? Digo mais: como não sê-lo se os médicos se tornaram escravos de especialidades e mestres em prescrever medicamentos conflitantes, empurrar os pacientes de um colega para outro e lavar as mãos diante dos incidentes da profissão? Apesar disso, mamãe os acata e admira. E, sempre sorridente, acorre às salas de espera onde distribui toda simpatia e paciência que me faltam. Ah, como a genética é inexata. 

O que mais se destaca na sua personalidade é o gosto pelos métodos aplicados ao funcionamento da vida e dos lares. Quem passar um dia na sua casa haverá de perceber a perseguição implacável a certos inimigos, não raro imaginários ou invisíveis, os últimos sendo os mais sorrateiros: pequenos insetos, larvas de baratas, formigas minúsculas, cupins, ácaros, germes e bactérias. Antes que ela me interprete mal e mande carta de desagravo, devo dizer que há muitos anos eles não aparecem em seu raio de supervisão. Como poderiam, se o menor resíduo de bolacha é caçado nos rodapés à custa de vigorosas fuçadas de aspirador de pó? 

Logo ao amanhecer, ela desencadeia uma cruzada preventiva contra as surpresas da meteorologia. Como o comandante de uma nau de guerra, ela vai à varanda e prescruta os céus. Analisa os ventos, ouve o noticiário, lê as nuvens e monta uma estratégia de sobrevivência. Todos ao seu redor serão avisados das ameaças das chuvas, de vento, das rajadas que podem varrer os ares diáfanos do Recife no meio de uma inofensiva tarde iluminada e que poderiam lhe macular as cadeiras de palha da Índia, as espessas madeiras bem envernizadas e a sacrossanta alvura dos tapetes. É dado, então, um alerta laranja ou vermelho a Severina, espécie de primeiro oficial da tripulação. 

Mas os cuidados não se restringem à intempérie. Há inimigos internos, como o desperdício e as ineficiências. Assim, os ambientes refrigerados são hermeticamente vedados de forma que não haja perda de frio. Os pontinhos luminosos do micro-ondas, do DVD, do computador e da televisão lá não têm vez. Ela simplesmente desliga as tomadas antes de dormir e ninguém a convenceria de que tais medidas não valem a preocupação. O mesmo rigor se aplica ao fechamento de pacotes de biscoito com pregadores de roupa e o descarte de papéis de bala em lixeira seletiva. Em suma, trata-se de uma senhora civilizada, mãe de um rebento, este sim, relapso e ultrapassado. 

Para ela, não basta expedir uma ordem e vê-la materializar-se. Convém ditar o método de executá-la. Se ela pede um pote de doce de jaca, as recomendações vêm a reboque. Severina será instada a ter cuidado com o corrimento lateral da calda e posterior vedação do vidro. Precauções no trajeto que vai do prato à boca do comensal são disparadas à neta Bia. Afinal, um pingo pode macular o uniforme escolar e, pecado dos pecados, manchar a toalha de alvura celestial – o que demandaria procedimentos de reanimação do tecido dignos de uma UTI. 

Um acervo conceitual único é consagrado ao bem-vestir. Vinda de um tempo em que os trajes davam a senha da posição do indivíduo na sociedade, ela se apegou à palavra “clássico” com a tenacidade de um molusco ao rochedo. Assim, não é de bom tom abusar da informalidade sequer nos fins de semana. Impõe-se observar os vincos bem passados, os colarinhos duros de goma, os sapatos reluzentes e, como não, desfilar um ar aristocrático domingueiro digno das quermesses em honra do bispo. Um deslize pode valer ao indigitado a classificação de “canalha” – termo caro a Nelson Rodrigues – e suas terríveis declinações. Nada disso, caro leitor, a impede de ser de todas as pessoas a mais doce". 

É isso. Afortunado do filho que pode escrever tudo isso dez anos depois. Que assim continue, mamãe. 


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