Inflação em bolívares

Chávez assinalou o começo da marcha rumo à desmoralização da vida econômica

Por Fernando Dourado Filho, de João Pessoa (PB)

Inflação em bolívares

Nos idos dos anos 1980, cheguei a La Paz, na Bolívia, para dois dias de trabalho. Meu representante, um baixinho simpático de nome Rodolfo Barrios, ao perceber que o ar rarefeito das alturas andinas me fazia ofegar, sugeriu que fôssemos de carro ao restaurante Gargantua, onde almoçaríamos. Passando diante do palácio Quemado, na plaza Murillo, sede da presidência da república, percebi quando uma "cholita" se aproximou para lhe pedir uma esmola. Foi então que Rodolfo pegou uma maçaroca de cédulas novas (talvez umas dez) e deu-as à índia que se esgueirou pela rua sem uma palavra de agradecimento. Pensei: ou ele é muito generoso ou ela é a mais ingrata das pessoas. Ou ambos. Pois bem, não era nem uma coisa nem outra. Aquela cena era filha dileta da inflação galopante. Mais tarde, no mesmo dia, ao trocar US$ 50 com um cambista de rua, fiquei perplexo ao recebê-lo no quarto, onde despejou sobre a cama no mínimo 3 quilos de cédulas. Ao terminar de contá-las, ele me disse: "Agora só valem 45, senhor. A inflação já corroeu 10 % enquanto o senhor as conferia". 

Pois bem, quem achou que nunca mais veria a cena, reviveu a sensação dessa catástrofe ao assistir ao "Profissão Repórter", de Caco Barcelos, semana passada. Numa matéria em Roraima, no extremo norte do Brasil, vimos os venezuelanos que acorrem ao comércio local, levando mancheias de bolívares, moeda esta corroída por uma inflação que chega a 800% por ano. Para uma operação de câmbio de conversão de R$ 4 mil reais– e seu equivalente de aproximadamente a dois milhões e meio da moeda venezuelana –, vimos pacotes pesados de papel moeda, o que evidencia a força avassaladora de uma inflação fora de controle, caminho mais curto para o caos, como já testemunharam Zimbabwe, Rússia e Israel, para não falarmos do exemplo clássico da hiperinflação alemã, talvez o caso mais extremo de que se tenha noticia ate os dias de hoje. Em dado momento da história brasileira, quando vivíamos os tempos de Sarney, chegamos a ter calamitosos 1821% anuais no Brasil. Sempre em viagem mundo afora, minha salvação foi uma secretária japonesa que aplicava meu salário.

O que acontece na Venezuela é o exemplo mais vivo das catástrofes que podem acometer países onde grassa o populismo. É evidente que muitos dos simpatizantes o fazem por pura ignorância. No mais das vezes, seus argumentos se resumem a um arrazoado de slogans e de emoções epidérmicas, proporcionadas pelo fato de as políticas públicas nivelarem todos por baixo. Na falta de ter acesso a melhores horizontes, se comprazem em saber que os demais – especialmente os que outrora integravam a elite – também estão condenados à mesma desesperança. À época que comecei a visitar a Bolívia, também ia muito à Venezuela. Tão forte era a conta petróleo que Caracas era a única capital onde o valor nominal do dólar equivalia a centavos de bolívar. Era um país que irradiava otimismo e um estilo e vida quase perdulário. Sem que eu soubesse, a "maldição do petróleo", ou "doença holandesa", já assentava as bases para que um dia a Venezuela fosse pasto farto para a demagogia. Pois bem, aconteceu. Chávez assinalou o começo da marcha rumo à desmoralização da vida econômica. De podre na rama, Maduro vai cair.


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