Varig, Varig, Varig

Nunca uma marca brasileira me falou tanto ao coração

Por Fernando Dourado Filho, de Garanhuns (PE)

Fernando Dourado Filho fala de suas lembranças da Varig

Nunca uma marca brasileira me falou tanto ao coração. Ainda na infância, lá se vai meio-século, as campanhas publicitárias da principal companhia aérea brasileira povoavam minhas fantasias e alimentavam o que mais tarde se revelaria uma alma incorrigivelmente nômade. Os jingles, as vinhetas e canções que anunciavam as novas escalas da Varig devem ter me influenciado muito além do que imagino. Não deve ser por outra razão que ainda conheço de cor as canções que anunciavam as alternativas de voo para Miami– "via Caracas, via Brasília e Manaus, e via Belém, quatro voos semanais, Miami é sol, Miami é mar, Miami é vida, Miami é Varig" – ou cada palavra da divertida marchinha que assinalou o voo inaugural para Frankfurt e que abria os olhos da audiência para as maravilhas da Alemanha.  

Nenhuma talvez tenha marcado tanto a imaginação infantil quanto a do voo para Tóquio, via Los Angeles. Contava a história de um pescador japonês que viera ao Brasil no dorso de uma tartaruga amiga. Aqui chegando, ficou maravilhado pela natureza exuberante e viveu muito feliz no "reino encantado". Mas um dia, ei-lo tomado de grande nostalgia pela pátria. Como voltar? Então, uma "fada misteriosa" lhe apareceu e designou uma arca. "Ao abri-la quanta alegria, chorou de emoção, encontrou uma passagem da Varig, e voou feliz para o Japão". Outra que foi marcante mostrava Cabral chegando ao Brasil. Mais tarde, foi acometido das saudades inevitáveis da alma lusitana. Então vem uma toada de fado: "Mas Cabral sentiu no peito, uma saudade sem jeito, volto já para Portugal, e quero ir pela Varig". 

Em 1973, por outro lado, foi graças a um telefonema do gerente regional da TAP do Recife que escapei de tomar um voo para Paris que, infelizmente, passou para a história como a maior tragédia aérea da empresa e uma das mais marcantes da aviação comercial no mundo. Mais tarde, especialmente na década de 1980, cortei os ares do planeta a bordo das asas míticas e era com uma mistura de tranquilidade e orgulho que via o logotipo da Varig em Lagos, Luanda, Joanesburgo, Bangkok, Hong Kong e Tóquio. Para não falarmos das inúmeras escalas na Europa e América Latina. Mal sabíamos que a história jamais seria reeditada por uma companhia brasileira e que, poucos anos mais tarde, a empresa gaúcha beijaria a lona, desfechando um golpe violento na nossa autoestima. Era um aviso de que conluios políticos e gestão são fadados a voo curto. 

Se viva, a Varig teria completado 90 anos semana passada.   


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