Medicina e jeitinho

Não há palavra mais comum nos consultórios do Nordeste do Brasil do que "encaixe"

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Meu médico clínico o indicou como o melhor especialista em seu ramo. Gentilmente, até telefonou para esse seu ex-aluno para que ele me recebesse em prioridade, já que viajo muito e, de certa forma, tínhamos urgência em conhecer a opinião dele sobre meu problema. Tudo acertado, telefonei para o consultório para marcar um horário, seguindo os trâmites que regem esses encontros. A secretária então disse: "Amanhã ele vai atender das sete às onze. O senhor venha cedo porque o atendimento é por ordem de chegada". "Mas eu tenho outros compromissos. Minha vida não está paralisada por conta de um tornozelo inchado, minha senhora", rebati. Que acertássemos um horário e eu estaria lá. Não, infelizmente o sistema no consultório era distinto. Ou o paciente se resignava a ser atendido por ordem de chegada ou não seria atendido. Eram as regras do jogo. Num primeiro momento, aquilo me pareceu surreal. 

Assim sendo, pensei até que ligara para o número errado. Repeti-o pra conferir e ela confirmou o nome do médico. Não, tampouco ligara para um órgão de governo. Ainda perguntei: acaso estava me habilitando a um atendimento gratuito? Não, a consulta era paga e até era bem cara. "É que aqui trabalhamos assim", concluiu. Foi então que lembrei da África de minha juventude que, pensando bem, não mudou tanto de lá para cá. Na Gana dos anos 1980, nem sempre se obedecia a quaisquer ritos de planejamento simplesmente porque não existia a noção de futuro ou de amanhã. Na Nigéria à mesma época, era comum que não se aceitassem reservas em aviões de véspera para voos domésticos. Era madrugar no aeroporto, contar com a simpatia de alguém e esperar a distribuição de um número limitado de assentos. Até 90, embarcava-se. Os demais sobravam e só lhes restava esperar o próximo voo.   

Se esse conceito flexível se aplicava a uma atividade de precisão e planejamento como é o caso a aviação, o que não dizer de outros setores? Em alguns países, era vão querer saber quando partia o ônibus, por exemplo. Afinal, o futuro não lhes pertencia. A cognição africana considerava quase sacrílega a noção de nos projetarmos sobre uma dimensão que não estava ao nosso alcance controlar. "O ônibus sairá quando estiver cheio". "E se não encher?" "Ora, então não sai". "E se encher logo à primeira hora?" "O motorista dará a partida. Portanto, chegue cedo". Diante de uma noção tão líquida da cronologia, ou circular como dizem outros, nada de mais normal que os atrasos sejam a regra e não a exceção. Nessas culturas, é claro, conversa-se muito e as salas de espera congregam uma espécie de grande família multiativa e multitarefa. Diante do poder discricionário do curandeiro, todos se igualam na pequenez de dependentes e se abrem em intimidades e confidências. 

Na verdade, se é tentador atribuir o sistema à impontualidade própria dos que fazem muitas coisas ao mesmo tempo e usam o relógio mais como ornamento do que como sinalizador de compromissos a ser cumpridos segundo o rigor de uma lógica ativo-linear, é melhor pensar no inverso. Que a adoção do sistema não foi arbitrária e sim uma resposta a características culturais inerentes aos povos conviviais para quem um pouco de espera é um ritual perfeitamente palatável. Nesse contexto, impõe-se saber negociar com a mentalidade e fazer valer o peso dos argumentos – quando existentes – para que consigamos moldar os compromissos às nossas prioridades. Não há palavra mais comum nos consultórios médicos do Nordeste do Brasil do que "encaixe", sinônimo médico de jeitinho para driblar com boa vontade e sorrisos cúmplices os atrasos e a lentidão. No final, como o caos do trânsito indiano, dá tudo certo.


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