A prosperidade de psicanalistas e criminalistas

Os desdobramentos das operações em curso vão escancarar certos porões onde só rara vez entrou a luz solar

Por Fernando Dourado Filho, de Ponta de Serrambi (PE)

Fernando Dourado Filho fala da prosperidade que psicanalistas e criminalistas terão no Brasil

São inegáveis os méritos das operações policiais e investigativas que passaram a integrar as madrugadas brasileiras, sem distinção do prestígio e da alta patente dos envolvidos. Muito embora algumas derrapadas tenham se registrado, como parece ter sido o caso da "Carne Fraca", a grande maioria delas nos levará a um país melhor, disso ninguém parece duvidar. Nesse contexto, veremos uma eclosão de prosperidade e transferência de dinheiro de um setor para outro. Imagino o quanto advogados e psiquiatras vão se beneficiar das necessidades de orientação de seus clientes e, sobretudo, do apelo interno que muitos deles sentirão de rever valores de vida, mergulhar no autoconhecimento e se preparar para o que os americanos chamam simpaticamente de um "fresh start", ou seja, de uma relargada rumo a uma nova fase da vida. Afinal, a maioria das pessoas não se compraz em ver um semelhante destruído, mesmo que tenha incorrido em equívocos graves. Repara-se o dono, paga-se a pena e pronto. E assim fazendo, já teremos avançado muito. 

Mas não só terapeutas e criminalistas devem se preparar para tempos de vacas gordas. É lícito acreditar que os desdobramentos das operações em curso se espraiarão por muitos meses e a toda hora a crônica nacional, e até internacional, será abastecida de fatos assombrosos que, de certa forma, vão escancarar certos porões onde só rara vez entrou a luz solar. Da exploração dessas cafuas, é inevitável que surjam histórias de casamentos despedaçados, filhos constrangidos, exílios voluntários e até mesmo, por que não, de vocações bissextas para uma vida espiritual que até ontem era inverossímil. Eis as glórias e mistérios do ser humano. Ou alguém acha que um sujeito como Sérgio Cabral terminará seus dias como o mesmo "bon vivant", espécie de cínico patológico, que quis fazer a humanidade de idiota? Espero que não. Seja como for, é desse rescaldo que imagino que escritores e cineastas terão material farto para a próxima década. Kennedy, Al Capone e Pablo Escobar não renderam vasta filmografia? Por que não aqui? 

Se o "ciclo da Lava Jato" terá um dia uma relevância literária tão importante quanto teve o do 11 de setembro nos Estados Unidos e no mundo, a ponto de podermos contar centenas de bons títulos lá pelo ano de 2022, o mesmo só não acontecerá com o cinema e a televisão por uma razão das mais prosaicas. Ora, segundo meu bom amigo Guilherme Quintela, roteirista cobiçado pelos grandes nomes das telas, o que se passa no Brasil é fenômeno único no mundo. Não basta que se apresente uma boa história, cheia de ingredientes que transcendam o mero episódio e desnudem uma visão universalista do drama humano.  Não basta que o argumento seja bom a ponto tal de galvanizar audiências globais, como foi o caso de exceção de "Cidade de Deus". Segundo ele, nossos cineastas gostam de contar a "história deles", e não a de terceiros, por melhores que sejam. Ou seja, vaidade lá em cima e pragmatismo nulo. Na minha singela interpretação, isso se deve ao fato de que não precisam do público e da bilheteria para sobreviver. Basta o patrocínio generoso, no bojo do edital e da captação. 

Voltando à gangorra que rege as transferências de patrimônio por acontecer, quem mais tem a ganhar e a perder? Ora, a tomarmos como exemplo o aludido caso do ex-governador Cabral, é lícito supor que as joalharias conhecerão uma sensível baixa de faturamento. Pelo que se viu na casa do filho do ex-ministro Lobão – onde mil quadros teriam sido encontrados – os "marchands" tampouco passarão por bom momento, pelo menos no começo. Restaurantes de alta gama devem estar se ressentindo da falta do fator Petrobras, mas os novos mandarins logo estarão aboletados às suas mesas, prestigiando as boas adegas. O mesmo vai acontecer com arquitetos e decoradores. A nova leva de afluentes será por certo mais comedida até porque tem bom gosto e outro padrão estético. Dificilmente folhearão torneiras a ouro ou mandarão gravar suas iniciais em azulejos de fundo de piscina. Enfim, a vida se renovará. Seja como for, é bom sermos prudentes nos julgamentos. Quem é de minha geração conhece pessoas que estão em todos os lados do cenário. Melhor deixar a justiça ao Judiciário. E torcer pelo país, conscientes de que vivemos História. 

leia também

A governança precisa ser mais que corporativa - O país deve debater para evitar que o governo destrua o valor de empresas

Ações da Braskem seguem em queda por Lava Jato - Os papéis desvalorizaram mais de 5% nesta quinta-feira

Acordo de leniência da Braskem avança - No ano passado, a petroquímica iniciou investigações internas

Agora quem não quer sou eu - E quando a empresa pisa na bola e compromete a imagem da celebridade que a endossa?

Alexandre Almeida comandará a BRF no Brasil - Companhia catarinense também anunciou outras mudanças

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: