Domingo de Páscoa na Cidade Eterna

Mamma Leone não era um exemplo de finesse. Mas estávamos contentes. Tínhamos conhecido uma lenda viva

Por Fernando Dourado Filho, de Ponta de Serrambi (PE)

Vista de Roma, na Itália

Dos domingos de Páscoa que lembro, um dos mais marcantes foi um passado em Roma, no final do pontificado do Papa Paulo VI. A verdade é que são um pouco turvas as lembranças que trago daquele mês de abril radiante de sol e alegria. Para espanto dos que me leem, não lembro sequer se fui à Praça de São Pedro por ocasião da missa, fato de que duvido muito porque já então sofria de verdadeira fobia a multidões. Lembro, contudo, das pessoas que cruzavam as pontes falando alto e acenando ramos. Mas as grandes surpresas resultaram sobretudo de dois encontros fortuitos que tive na véspera em plena Via Veneto, por coincidência com gente do Estado de Pernambuco, logo a quem era de uma forma ou outra conectado. E ambas as ocasiões resultaram em programas que não estavam no script, mas que deixaram marcas pelo inusitado das dinâmicas que então se instauraram. 

O primeiro desses encontros foi com um senhor muito simpático que eu conhecera em viagem que fizera aos Estados Unidos, detalhadamente contada em meu livro "Nos passos de Fiszel Czeresnia e outras estórias" (Chiado, 2016), no capítulo "Página de memória: o voo da Georgia". Pois bem, ele era advogado e, quando jovem, fora aluno do Colégio Marista do Recife. Percebendo minha desenvoltura em italiano, me perguntou se não poderia acompanhá-lo na visita a um amigo padre que residia na sede da instituição em Roma. Era um prelado de Mariana, um homem muito simpático e bem humorado, que nos recebeu com um convite tentador: por que não ficávamos para almoçar com os demais membros da Congregação?   Eu não tinha o que opor à sugestão, especialmente porque vi nos olhos de Dr. Jorge um brilho de satisfação que eu não iria frustrar. 

Pois bem, tudo correu maravilhosamente bem. Certamente que éramos uns 30 homens àquela mesa Como era de se esperar, eles nos fizeram uma gentil saudação de boas vindas, uma breve pausa para a reza e depois passamos a tomar vinho e degustar o peixe do Mediterrâneo que condizia com a época. Um detalhe, contudo, me ficou daquele ágape. Foi muito estranho estar na companhia estritamente de homens, talvez pela primeira vez na minha vida. Enquanto entoavam musicas divertidas, quase ingênuas, padres e teólogos respeitáveis se deixavam levar pelos eflúvios da alegria saudável e do bom vinho. Saí dali pensativo e revi os conceitos que fazia deles. No trem, Dr. Jorge me perguntou o que achara. Agradeci e disse que me divertira muito. E confessei que nunca tinha pensado que era possível passar momentos tão bons sem que uma mulher sequer estivesse presente no recinto. Pura deformação de origem. 

O segundo encontro aconteceu à porta do hotel Excelsior e lá estavam de saída Dr. Paulo Tavares Correia e esposa, D. Suzana. Médico, porém empresário do setor hoteleiro, Paulo me convidou para jantarmos na cantina Mamma Leone. Estudante de orçamento contingenciado, não era todo dia que recebia convite tão tentador. Lá chegamos animados e ao cabo de uma longa espera, conseguimos nossa mesa. Se a cozinha não tinha grandes pretensões gastronômicas, isso era de somenos. Importante era comer uma massa honesta e tomarmos bastante vinho para carburar aquele encontro festivo. A certa altura, eis que Paulo me pede para dizer ao garçom que ele queria falar diretamente com a dona da casa, a própria Mamma Leone em pessoa. O rapaz disse que seria difícil porque ela estava pilotando fogões para mais de 100 pessoas e não podia sair da cozinha. Mas que iria tentar. 

Acho até que já tínhamos desistido de nosso pleito quando, do nada, aparece aquela figura digna de Fellini. Alta, cabelos desgrenhados, montada num par de tamancos, seios enormes e manchas de molho de tomate no avental mal amarrado, ela chegou com cara de poucos amigos. Dispensou nosso convite para sentar e riu com escárnio do convite que Paulo me pedira para vocalizar. Queria que ela viesse a Pernambuco para animar um festival de massas em seus três hotéis. De jeito nenhum, rebateu. Sequer férias podia tirar. Não estávamos vendo as multidões que faziam fila para comer suas iguarias? E onde era mesmo o Brasil? Não, obrigado, se me chamaram aqui para isso, perderam tempo e eu também. Em suma, a Mamma Leone não era um exemplo de finesse. Mas estávamos contentes. Tínhamos conhecido uma lenda viva e, sobretudo, uma romana de quatro costados.  Arrivederci, Roma!


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