Trabalhando com Orientais

Avessos ao toque físico, eles prestam muita atenção ao que você diz e não serão deliberadamente propositivos

Por Fernando Dourado Filho, de Ponta de Serrambi (PE)

Fernando Dourado Filho conta suas impressões sobre os orientais

É claro que o conceito de oriental pode ser muito elástico. Quando interagimos profissionalmente com iranianos, indianos e armênios, nós já estamos lidando com orientais. O que buscamos aqui, contudo, é focar as culturas do Extremo-Oriente. Conquanto elas possam apresentar grandes diferenças entre si, gostaria de abordar alguns aspectos que são pertinentes a todas em seu conjunto, o que, bem entendido, não contempla perfis de exceção – sejam eles individuais ou coletivos – que fujam a essas considerações bem intencionadas. Atentar para os pontos abaixo pode fazer grande diferença na hora de calibrar suas expectativas e de estar à altura das que eles possam eventualmente ter em relação a você. 

a) Considerações gerais – Orientais são em geral reativos. Isso significa que sua atitude parece ser (e, essencialmente, é) de defesa. De modos discretos, não apreciam gesticulação exuberante, metáforas ou modulações de voz. Avessos ao toque físico, prestam muita atenção ao que você diz e não serão deliberadamente propositivos, sequer na hora de colocar na mesa pontos que contemplem seus interesses. Consensuais e articulados em grupo, não costumam ter arroubos de individualismo nem tampouco gostam de ser encurralados em questões fechadas, dessas que só admitam um sim ou não. Corteses de modo geral, gostam de se expressar por uma sutil troca de presentes e pequenos gestos;

b) China – Grande locomotiva da economia mundial, o gigante asiático é, por excelência, uma sociedade de alto contexto. O que queremos dizer com isso? Que diante de uma grande coesão e uniformidade cultural, a comunicação pode parecer inescrutável para quem não conhece o pano de fundo cultural desse povo milenar. Adeptos da comunicação indireta, os chineses vêm de uma história de glórias e naufrágios. Etnocêntricos por excelência, enxergam em seu país o "Império do Meio" – nome da China em chinês – e, como é bem sabido, mantêm uma separação dogmática entre negócios e política. Quem quiser fazer os primeiros, deve se abster de se envolver com a segunda, salvo se for no âmbito do Partido Comunista;

c) Japão – O "país do sol nascente" tem um contingente populacional equivalente a um décimo do chinês e é marcado por um admirável crescimento econômico. Se em 1945 o Japão estava devastado pelo trauma das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, poucas décadas bastaram para que seu povo industrioso e disciplinado o levasse ao topo do ranking como potência econômica. Avessos a toques físicos, contato visual prolongado e qualquer tipo de açodamento em tocar a agenda, os japoneses apreciam o progresso lento, mas continuado. Um traço a ser destacado é o tempo dedicado ao planejamento. Num país sacudido periodicamente por terremotos, nada é feito de improviso. Lá as aparências contam.

d) Coreia do Sul – A situação tensa que mantém com o belicoso vizinho do norte não impede que se respirem ares bastante amenos no "país das manhãs calmas". Os coreanos alcançaram nos últimos 30 anos um desenvolvimento estarrecedor. Graças ao dirigismo estatal e ao colosso das "chaebol" – os enormes conglomerados que se assemelham aos "keiretsu" do vizinho Japão –, a Coreia conseguiu um lugar de destaque na economia mundial. Diferentemente de seus vizinhos, os coreanos apreciam uma conversa mais franca, à base de olho no olho, e falam alto, se a situação pedir. Têm orgulho de seus feitos e sonham com o dia que haverá a reunificação política da Península, a exemplo do sucedido na Alemanha; 

e) Cingapura, Hong Kong – A primeira é uma cidade-estado onde um audacioso plano de engenharia social foi levado a cabo por um "déspota iluminado". Condomínio formado por chineses, malaios e indianos, Cingapura se valeu de uma posição geográfica única para adensar sua vocação de prestadora de serviços em logística. Hoje o "high tech" prevalece em tudo. Hong Kong tem vocação similar, mas está há 20 anos reincorporada à China que lhe respeita as instituições, mas mantém um olho vigilante. Em ambos prevalece um estilo de comunicação mais ocidental, o que vale dizer direto e ativo-linear. Mercantis por excelência, respira-se no ar que em ambos "tempo é dinheiro". A elite econômica de Cingapura é chinesa. 


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