Mais marceneiros e menos advogados

A fidelidade se desdobra ao longo de anos e o nome do profissional vira sinônimo de confiabilidade e trabalho bem feito

Por Fernando Dourado Filho, de Ipojuca (PE)

Fernando Dourado Filho apela para que o Brasil tenha mais marceneiros e menos advogados

Sempre que venho ao Nordeste, gosto de perguntar às pessoas sobre seus projetos de vida. Como observador de detalhes que sou, percebo a recorrência em versão muito mais agravada de um problema que também se dá em São Paulo: a falta de mão de obra qualificada para tarefas do dia a dia. Dito de outra forma, se precisarmos de médicos, advogados ou arquitetos, as indicações virão em profusão e o problema será definir entre tantos o melhor. Já quando se trata de achar um eletricista ou um moveleiro para fazer uma estante, a fila de interessados é quilométrica e basta que um se destaque para que tenha agenda cheia por meses a fio, sempre à base da recomendação de amigos e familiares. Em muitos casos, a fidelidade se desdobra ao longo de anos e o nome do profissional vira sinônimo de confiabilidade e trabalho bem feito. Quantas vezes não ouvi minha mãe se referir a alguns desses profissionais como se fossem membros da família? Bastava dizer que passaria em Seu Daniel, por exemplo, para que soubéssemos que era para consertar malas e sapatos. 


E, no entanto, a impressão que se tem é que falta a esses ofícios o prestígio de que desfrutam em outros países. Daí o imenso contingente de jovens e não tão jovens que acorrem a faculdades precárias, estritamente em busca de um diploma universitário. Carentes de uma base educacional sólida, atravessam os anos aos trancos e barrancos e, no final, não raro se frustram por não achar colocação no setor privado à altura das expectativas em que inadvertidamente embarcaram. Afinal, abraçar o conhecimento com a dedicação que pede a filiação a uma instituição acadêmica, vai muito além do estado de espirito pragmático de quem está buscando um ofício que lhe permita manter a dignidade, ganhar identidade, além de viabilizar o sustento material. É claro que a criação desse horizonte de realização instantânea interessa a empresários e a setores do governo que despejam rios de dinheiro em programas pródigos em facilitar o acesso ao ensino superior, sem o compromisso de dotar os alunos de musculatura intelectual.

Esse fenômeno não é só brasileiro. Nossos maiores grupos privados, que abraçam essa verdadeira pirâmide de afiliados, empalidecem diante dos números apresentados pelos conglomerados de educação privada na Índia, por exemplo. Se os nossos estão na raiz de patrimônios bilionários, numa base populacional de 200 milhões de pessoas, o que não dizer de quem reproduz o mesmo modelo num país como a Índia, onde o contingente é o nosso multiplicado por seis? Li recentemente uma entrevista de um desses bilionários indianos. Diante do fato de que a empregabilidade de seus graduandos é baixa quando cotejada com a dos egressos das boas universidades públicas, ele insultou essas últimas, acusando-as de sangrar o contribuinte indiano já que, uma vez formados, os brilhantes politécnicos vão morar nos Estados Unidos. Em favor dos seus, dizia que, na pior das hipóteses, ganhavam colocação na própria universidade ou eram concitados a abrir "franquias" em lugares remotos, onde residia um vasto contingente de jovens à espera de um diploma.  

Ora, mais interessante para um país do que montar um esquema de Ponzi, a já aludida "corrente" que se alimenta de uma crença pueril na educação dita para o mercado, é a criação de quadros excelentes em ensino técnico. Na Alemanha, os chamados "Facharbeiter" – ou trabalhadores especializados – têm ótimo nível de vida e grande prestígio. Apesar da concorrência muitas vezes agressiva de funileiros, mecânicos, carpinteiros e encanadores do Leste da Europa, os bons continuam em alta conta. Certa feita conheci na Itália dois artesãos de Florença que se especializavam em fazer pisos de madeira. Sentados lado a lado no restaurante, percebi que conheciam bem o mundo. "Sim, temos muitos clientes na Itália, mas viajamos há mais de 30 anos. Já fizemos castelos na Inglaterra, a residência de verão do rei do Marrocos e várias "datchas" na periferia de Moscou. Não temos agenda para novos clientes pelos próximos três anos".  Isso é que é criar um mercado de forma inteligente. E, certamente, fazer bom uso de mãos abençoadas.     

Bem a propósito, lembro que viajava de trem no interior da Polônia tempos atrás e conversei animadamente com um professor de muito bom nível que, em função das ofertas generosas que recebera, abdicara do ensino público em favor do privado. Apesar da boa remuneração, ele disse não saber por quanto tempo aguentaria aquele arremedo de instituição. Para ilustrar o que queria dizer, ele se saiu com um exemplo que evidenciou a carência de educação de base com que se defrontava: "Pedi aos alunos que escrevessem em três linhas, com suas próprias palavras, o que o serviço meteorológico de Gdnask previra para a semana". Então, disse ele, de um universo de 40 estudantes, recebeu apenas duas micro redações que mostravam alguma originalidade e estavam isentas de derrapadas na ortografia. No final, foi advertido pela direção para não expor os alunos a situações vexaminosas e que não constavam do currículo. Menos mal que a Polônia está bem servida de encanadores e soldadores. O que não é nosso caso, onde escassez, retrabalho e redundância são de regra.   


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