As "veias abertas" e Temer

Nada nos autoriza a esperar que um mandato-tampão venha a encantar ou reverter os rumos de uma república minada

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Michel Temer pensativo

Li no Twitter uma postagem de meu colega de infância Fred Navarro, hoje jornalista em São Paulo: "Os resultados eleitorais recentes na América do Sul mostram um continente dividido ao meio e com as famosas veias expostas pela corrupção". Trata-se de uma imagem poderosa, catapultada por uma metáfora de Eduardo Galeano em livro que mais tarde o uruguaio confessou não ser seu favorito, apesar de lhe ter valido fama e fortuna. Foi nesse contexto que percorri virtualmente o continente que comecei a palmilhar no começo dos anos 1980 e que sempre me inspirou sentimentos mistos. Por que tamanha ambiguidade? Ora, apesar de todas as afinidades que nos irmanavam, a persistência da corrupção e do nepotismo por certo que reforçavam aquela sensação de estar na companhia de primos de maus hábitos. Sensação que seguramente podia ser a deles em relação a mim e ao Brasil que eu incarnava. 

Assim sendo, a oportuna reflexão de Fred Navarro, se pensarmos bem, se aplica ao conjunto de nossos vizinhos diretos e indiretos de condomínio. E é claro que o Brasil não constitui grande exceção aos conflitos que espoucam na Argentina, Paraguai, Equador e, especialmente, Venezuela, um país à beira do sucateamento. Nesse contexto de desencontros em que cada país padece à sua maneira das mazelas do patrimonialismo e do desmando, sinto que tanto imprensa quanto intelectuais se expressam com perplexidade – fingida ou não – sobre a baixa popularidade de Michel Temer. Ora, seria preocupante se o inverso estivesse ocorrendo. Seria indício candente de que estaríamos enveredando por políticas populistas, o que criaria um ambiente inóspito para 2019, quando o Brasil terá novo governante. Isso dito, convém que mantenhamos o velho senso de proporções e calibremos sensatamente nossas expectativas. 

Mas vamos aos fatos. Ora, Michel Temer não é um Kennedy. Tudo em torno dele é bisonho quando comparado com a mística do ex-ocupante da Casa Branca. Para nossa referência, Temer não tem a aura de De Gaulle nem uma vinculação visceral com a grande História. Diante de Churchill, então, teria a mesma estatura de uma taturana ao lado de um cavalo. No entanto, Temer não é burro. Nem santo, é bom que se diga. Mas é esse hábil jurista de Tietê o que temos no momento. Vale destacar, ademais, que para um político ruim de voto, não foi pouca coisa presidir dois Poderes e ter mantido a compostura, valor inestimável no Brasil. Querer que ele empolgue, contudo, é esperar demais. Mesmo que a titular defenestrada fosse ruim de serviço, nada nos autoriza a esperar que um mandato-tampão venha a encantar, encher os olhos da torcida ou reverter os rumos de uma república minada e bastante castigada. 

Assim, a exemplo do que já tivemos ao longo de nossa tumultuada História, está de bom tamanho que interinos e vices se alinhem com um mínimo do padrão de expectativas e não inventem. A busca da popularidade seria má conselheira. Se Temer joga de olho no placar do Congresso, como dizem uns, pode ser prova de pragmatismo. De quem sabe que está a bordo de uma casca de noz em mar revolto. Temer é, portanto, o que temos e menos mal que o futuro político dele tenha data para terminar. Daí devemos apoiá-lo. Segundo sintetizou um notório cientista político brasileiro: "Estamos no meio de uma difícil travessia que decidirá o futuro do país nos próximos 20 anos. Ela começou com o impeachment de Dilma, passa agora pelo purgatório das reformas do Estado (previdenciária, trabalhista, tributária e política) e terminará na eleição presidencial de 2018". Então, se quisermos nos manter viáveis, que nos livremos do populismo anunciado. 

Caso contrário, as "famosas veias" sangrarão a rodo.  


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