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Bem menos divertido é regressar e ver que o noticiário mal saiu do lugar

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

De volta ao Brasil, Fernando Dourado Filho se dá conta que nada mudou

O Brasil não é o único país que se assemelha a um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Mas é óbvio que os problemas que o atingem calam muito mais fundo em mim do que os dramas que nesse momento podem afligir franceses ou nigerianos. Afinal, sou nascido no Brasil, aqui aprendi a língua em que me viro e é em seu território que vive a maioria das pessoas que me são caras. Como se esse elenco já não bastasse, é o Brasil que me dá um passaporte e, infelizmente, é a ele que pago os impostos que tanto malbarata. Isso dito, explica-se minha frustração ao ver que custamos a sair do lugar depois de algum tempo de ausência. 

Fazendo uma analogia simplória, lembro que quando criança vi muito carro atolado na areia da praia ou mesmo em lodaçais de profundidade inesperada que pegavam o motorista de surpresa. Empolgado com a aventura de participar do resgate, eu escorava os pneus com palhas de coqueiro para que a borracha rodasse em superfície seca. Criado o atrito, ajudei mais de um a voltar à pista. Bem menos divertido, contudo, é regressar a seu país e ver que o noticiário mal saiu do lugar. E quando aconteceu, o rescaldo quase sempre resultou em fato temerário ou num chafurdar sem fim em discussões bizantinas que irmanam leigos, palpiteiros e até muitos intelectuais. 

Na primeira categoria, essa pequena resenha seria curta para elencarmos tantas mazelas. Desperto hoje com a notícia de que a noite passada testemunhou mais uma chacina na zona norte de São Paulo, em que morreram dez pessoas. Por outro lado, a necessidade desesperada de se criar nortes que assinalem as fronteiras entre o bem e o mal, açodam a opinião pública a ver no prefeito paulistano um presidenciável em gestação ou a apedrejar ídolos televisivos por conta de condutas por certo lamentáveis, porém desproporcionais ao que acontece com mulheres anônimas mundo afora. O maniqueísmo campeia e as redes sociais precisam de carne fresca para saciar o apetite. 

No segundo lote de divagações, estas sobre o sexo dos anjos, o quadro é surreal. Tanto frequentadores de botequins quanto próceres do mundo acadêmico se espantam, por exemplo, com a baixa popularidade de Michel Temer. Ora, meu Deus, quem disse que ser amado integra a missão de um político que veio só e simplesmente para tapar um buraco? Não está de bom tamanho que cheguemos às próximas eleições mais ou menos inteiros, com um mínimo de reformas devidamente aprovadas? Li em algum lugar uma ilação esdrúxula. Dizia: há duas hipóteses para Temer não ser popular. Ou a comunicação dele é fraca ou ele é muito ruim "politicamente". 

Embora fuja ao espírito desse post percorrer o perfil político do presidente, é óbvio que o juízo acima é bisonho. Pois não há comunicação que empolgue as ruas quando se tem a simples missão de fazer uma travessia árdua sem recurso ao receituário populista. E ponto. A segunda hipótese é risível. Como Temer pode ser ruim "politicamente" se era, antes de tudo, um parlamentar em fim de linha que não teria sequer conseguido se reeleger por seu Estado de origem? De quantos homens públicos podemos dizer que, apesar da agremiação temerária que presidiu, percorreram bem ou mal os três poderes? Terminar o começado já terá sido muito. E ponto final. 

Sei bem que esses sentimentos são típicos do que sempre chamei de "reentrada na atmosfera". Nos tempos da corrida espacial, nenhum momento era tão crítico quanto o da recondução dos tripulantes à Terra. Eram grandes os riscos de incêndio e fragmentação da nave. Analogamente, ao voltarmos dos espaços mais arejados do mundo, trazemos sempre uma expectativa de que a agenda brasileira tenha sido repaginada e que tenhamos virado algumas páginas. É desalentador constatar que não. Mas como bem sabemos, "ninguém se perde no caminho da volta", como dizia um sereno político paraibano. Logo mais, tudo parecerá normal. 

É imensa a capacidade de adaptação das pessoas à adversidade. É graças a ela que estamos vivos.  


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