"Maradona good, Pelé better, George Best"

A irreverência tem de ser dosada numa carreira que é por si só muito curta

Por Fernando Dourado Filho, de Obernai (França)

George Best, ídolo do Manchester United


A necessidade de ser sucinto pode fazer do Twitter um atalho poderoso para a objetividade. Mas também pode ser um castigo para uma conversa mais elaborada. Como toda rede social, ele é faca de dois gumes, pelo pouco que conheço delas. Digo isso porque essa semana tive algumas réplicas descabidas originadas de uma discussão com o repórter Ariel Palácios, de quem, aliás, gosto muito. Disse ele que Messi corria o risco de ser suspenso por quatro jogos pela Seleção Argentina, o que terminou se confirmando. A punição decorria de que ofendera a mãe de um árbitro. Ingenuamente, sem sequer conhecer a extensão do caso, comentei que era uma pena. Pois os insultos no campo deveriam ser relevados, como fazem os próprios jogadores entre si. É esporte de contato, os rapazes estão de cabeça quente e as cobranças são imensas. Ademais, e aqui veio o ponto real de discórdia, o puritanismo termina por recalcar as condutas mais banais. Mas adiante, os líderes populistas terminam se assenhorando do direito de dizer as coisas como elas são, e o capitalizam eleitoralmente. Daí ser desejável tolerar a prerrogativa de algum transbordamento. Essa era a essência do raciocínio que, evidentemente, não pude passar em 140 caracteres.  

Foi então que ele me respondeu paternalmente que educação não era frescura e que, na verdade, os maus modos eram por si sós o grande trunfo de radicais e brutamontes. Portanto era recomendável que Messi purgasse sua pena. Não procedia minha ideia de que devíamos aliviar a pressão da panela liberando a válvula. Outra pessoa me acusou de defender a crença algo idiota de que se o indivíduo é privado de dizer palavrões e descalabros, crescerá traumatizado. É claro que eu não dissera nada disso. Minha única intenção era enfatizar o quanto o moralismo excessivo pode ser cabotino. Assim como veio, logo a celeuma cessou e, como é comum no Twitter, a fila andou rapidamente. Esqueci o debate por irrelevante, mas o futebol não me saiu da cabeça. Mais precisamente porque lera tempos atrás uma matéria sobre um jogador que sempre me intrigou e que fora objeto de algumas conversas que tivera no passado com o amigo James Brown, da empresa B.S. Brown, de Manchester, onde ele jogara. Tratava-se de George Best, ídolo do Manchester United e uma das figuras mais midiáticas do esporte em seu tempo. A exemplo do sucedido a Garrincha e Adriano, contudo, a bebida levou-o a um fim melancólico. 

Nascido em Belfast, na Irlanda do Norte, junto aos estaleiros onde fora construído o Titanic, o jovem talento foi descoberto por um olheiro quando tinha 15 anos. Depois de um período de provação na Inglaterra em que lavava vestiários e limpava as chuteiras dos titulares, estreou no time principal e em dois anos era ídolo nacional. Especialmente depois de marcar gols decisivos sobre o Benfica, de Lisboa. Bonito, irônico e sedutor, George Best logo começou a ganhar muito dinheiro e a namorar com quem lhe cruzasse os caminhos, tendo especial predileção por misses. Foi dos primeiros jogadores a frequentar programas de auditório não esportivos e a marcar presença no mercado publicitário, anunciando desde chicletes a cereais. Conhecido como o "quinto Beatle", logo se expôs à sanha dos tabloides que adoravam suas extravagâncias. Assim sendo, comprava carros caríssimos de que logo se desfazia. Dava festas na costa espanhola cercado de jornalistas amigos – tanto quanto o ofício permite que sejam – e começou a faltar os treinos e beber em demasia. Anos mais tarde, pouco antes de a cirrose matá-lo, Best cunharia uma frase que ainda hoje é sua imagem de marca: "Gastei meu dinheiro com mulheres, carros e bebida. O resto desperdicei"

Anabolizado pelo estrelato, George Best foi um jogador de primeira linha. Veloz com a bola colada aos pés, fez dupla com o antológico Bobby Charlton, com quem não tinha boa relação fora dos gramados. Despreparado para o sucesso precoce, aos 26 anos achou que já poderia se aposentar por conta dos rigores do esporte de alto nível. Não suportando o anonimato, porém, começou a fazer concessões a times da Segunda Divisão, e não tardou a se entregar a um périplo melancólico pelo futebol de sua Irlanda natal, Austrália, Escócia, Canadá e Estados Unidos. Por ser unionista, passou a receber ameaça do IRA, o que terminou por impactar no equilíbrio que já era frágil. Ler sobre ele me remeteu a alguns jogadores icônicos do futebol brasileiro, além dos já aludidos. Especialmente Marinho Chagas e Paulo César Caju. Sintomático da legenda que construiu torno de si, é a frase que dá título a essa pequena crônica, estampada pelo fãs até hoje. Fazendo um trocadilho com o nome de família Best, o humor britânico veio em nosso socorro ao dizer: "Maradona bom, Pelé melhor e George o melhor de todos (Best)." A irreverência tem de ser dosada numa carreira que é por si só muito curta. Mas futebol e puritanismo não combinam. 

Foi isso que não consegui dizer a Ariel.


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