Como a banana explica o consumo do brasileiro

Estudo da Fecomércio-RS revela que renda tem de voltar a aumentar

Por Luiz Carlos Bohn*

Estudo da Fecomércio-RS revela que renda tem de voltar a aumentar

Estamos acostumados a ouvir que o brasileiro é consumista, que gasta mais do que pode e se endivida excessivamente. O consumo das famílias brasileiras realmente passou por um “período de ouro” recentemente. Pessoas que antes adquiriam apenas o básico passaram a comprar eletrodomésticos, móveis, carros e roupas. Começaram a frequentar salões de beleza, restaurantes, a viajar de avião e a se hospedar em hotéis. O consumo médio de um brasileiro crescia, em termos reais, somente 0,8% ao ano entre 1990 e 2003. A partir de 2004, até 2011, essa velocidade mais do que quintuplicou, chegando a 4,1%. Para examinar esse acontecimento um pouco melhor e, principalmente, para averiguar o tamanho da dívida que restou a pagar, a Fecomércio-RS realizou o estudo “Consumo e endividamento: o futuro do comércio está comprometido?”, divulgado recentemente.

Com essa pesquisa, identificamos algo interessante sobre o processo de aumento de consumo no Brasil. O volume de gastos dos brasileiros realmente avançou aceleradamente a partir de 2004. Para atribuir o conceito de “excessivo”, no entanto, é necessário compará-lo com o desempenho da renda, ou da produção, no mesmo período. Nesse sentido, a análise tradicional é confrontar o volume de consumo com o PIB, em termos reais. E fazendo esse paralelo, parece realmente ter havido um exagero: de 2005 a 2014, com exceção de 2010, o consumo no país cresceu mais que o PIB.

Esse diagnóstico, contudo, apesar de correto e habitual, ainda esconde um elemento que deve ganhar evidência. Quando medimos consumo e PIB em termos reais, estamos aferindo bens e serviços em volume, ou de forma mais trivial, simplesmente o número de coisas consumidas e produzidas em território nacional. Em outras palavras, esse exame não leva em conta os preços de nada e, portanto, não avalia valores monetários em reais. A ilustração a seguir facilitará o entendimento desse raciocínio lógico. Vamos imaginar um país que plante apenas bananas e, com a renda gerada pela comercialização da fruta, consuma exclusivamente açúcar. Se a quantidade da produção de bananas se mantiver constante ao longo do tempo, uma conclusão possível seria a de que a quantidade de açúcar que poderá ser adquirida por sua população não poderá aumentar. No entanto, se em determinado período o valor pelo qual as bananas são vendidas duplicar, e o preço do açúcar não se alterar, será possível levar para casa o dobro de açúcar com a mesma produção física de bananas. A grosso modo, foi mais ou menos isso que aconteceu no Brasil entre 2004 e 2014. O preço daquilo que produzimos aumentou de forma mais rápida do que o valor daquilo que consumimos. Em termos técnicos, ao longo de todo esse período, o IPCA, índice que mede os preços ao consumidor, cresceu menos do que o deflator do PIB, que regula os preços da produção.

Esse diferencial de preços ajudou a financiar parte relevante do aumento de consumo do período. Isso fica evidente quando calculamos a participação do consumo no PIB, partindo dos dados em valores monetários. Entre 2004 e 2011, essa participação praticamente não aumenta, oscilando em torno de 60% – patamar bastante moderado confrontado com o histórico nacional, e com outros países do mundo de renda per capita semelhante ao Brasil, inclusive. Nessa comparação, estamos abaixo de mexicanos, turcos e chilenos, por exemplo.

A partir de 2012, sim, a relação consumo/PIB começa a aumentar, fechando o ano de 2016 em torno de 64% – nível ainda moderado para o padrão mundial, mas parecido com os maiores valores observados no Brasil desde 1990. Entre 1995 e 2000, essa relação oscilou entre 64% e 65%. Assim, podemos concluir que atingimos, de fato, um certo limite de consumo no Brasil. Esse ponto, no entanto, não foi alcançado por um crescimento acelerado do consumo, que aconteceu até 2011. Chegamos a esse limite devido ao comportamento enfraquecido do PIB, especialmente nos anos de 2015 e 2016, em que o índice caiu cerca de 7% em termos reais.

A conclusão, portanto, é que, independentemente do nível de endividamento dos brasileiros, o que vem limitando o consumo no Brasil é a renda gerada pelos mesmos. Para que o consumo possa voltar a avançar de forma mais expressiva, é necessário que o PIB e, consequentemente, a renda originada por ele, voltem a crescer também a uma velocidade maior. Assim, quando pensamos em medidas que visem estimular o varejo, diferentemente do que foi o tom das políticas públicas no Brasil dos últimos anos, devemos priorizar ações horizontais, que aumentem a produtividade da economia brasileira como um todo. Esse é o caminho para gerar mais renda com preços estáveis – fator que também garantirá juros mais baixos e maior capacidade de endividamento para as famílias, elementos fundamentais para o desenvolvimento do comércio.

*Presidente do Sistema Fecomércio-RS. 


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