Jeroen Dijsselbloem e o fator intercultural

Um pedido de desculpas deveria bastar para que essas coisas não ganhassem destaque excessivo

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo

Não saberia dizer se o atentado da tarde deste 22 de março em Londres tirou o holandês da linha de tiro dos alvos a ser abatidos pela opinião pública. Mas até o meio-dia de hoje, todas as atenções se voltavam para o presidente do Eurogrupo, cuja cabeça vinha sendo pedida pelos europeus meridionais, mormente portugueses e espanhóis. Tudo isso – e não me cabe questionar o mérito da questão – por conta da afirmação que ele fez quanto à solidariedade dos países do Norte da Europa aos do Sul, por ocasião da crise que se abateu com vigor sobre os últimos. Disse Jeroen Dijsselbloem: "Não se pode gastar todo o dinheiro em copos e mulheres e, depois, pedir ajuda". As reações peninsulares foram, evidentemente, furibundas. Além de abusadas e pouco diplomáticas, foram tidas como injustas, além de trazer as digitais do sexismo e da xenofobia. Pobre homem. Que não venha passar férias por aqui tão cedo. 

O que é absolutamente certo é que não foi nem a primeira nem será a última vez que alguém pensa em voz alta, vocalizando em instâncias públicas o mesmo juízo que fazem os cidadãos comuns sobre seus semelhantes de outras latitudes. Em 2014, por exemplo, o eurodeputado austríaco Andreas Mölzer declarou: "Todos se riem dos alemães e dos austríacos, desde os portugueses aos europeus do Leste, dos suecos aos sicilianos, mas não se pode levá-los a sério, porque (eles) têm todos só um metro e sessenta e trabalham pouco". Se o comentário fala por si só em seu conteúdo reducionista e infantil, não é menos verdade que muitos nórdicos têm a mais enraizada convicção de que houve, no mínimo, imenso desperdício de recursos quando, eufóricos com os fundos de Bruxelas, portugueses e gregos deram livre curso à gastança, traçando estradas que ligavam o nada a lugar nenhum. Como negar?

Se tanto Dijsselbloem quanto Mölzer são nomes de segunda linha a quem se poderiam atribuir sandices inconsequentes, o mesmo certamente não poderíamos dizer de Angela Merkel. Pois bem, com a autoridade de quem está à frente de um país que privilegia como poucos as boas formações técnicas, a Budeskanzlerin não hesitou em apontar o mito de que estudos universitários – especialmente estes feitos a toque de caixa – facilitavam a chegada às posições de comando. Sobre isso, falou Angela: "Caso contrário, não conseguiremos persuadir países como Espanha e Portugal, que têm demasiados graduados". De novo, temos aqui a reedição do que pensam milhões de nórdicos que, acostumados às hierarquias horizontais e ao “understatement”, julgam a tradição bacharelesca ibérica excessivamente pomposa e cartorial. Foi uma afirmação que caiu feito uma bomba nos corações sensíveis. 

É claro que as colocações acima estão numa camada mais crítica do que as meras gafes cometidas por chefes de estado de todos os tempos. Mesmo porque quem conhece a formação (sic) da imensa maioria dos políticos sabe que constituem exceções aqueles que ascenderam em função de seus predicados intelectuais. Pelo contrário. Foi justamente por saber jogar com a força de impacto de suas posições que conseguiram conquistar o coração das massas. Que Ronald Reagan tenha brindado à prosperidade do povo da Bolívia em plena Brasília e que Lula tenha dito na Namíbia que aquilo era tão limpo que nem parecia que ele estava na África, é da natureza das coisas. Num capítulo mais contemporâneo temos candidatos à presidência – e até presidentes – que angariam simpatizantes por ousar dizer em público o que as famílias dizem em privado sobre mexicanos, judeus ou marroquinos.

Veremos o que a primavera reserva ao holandês irreverente. No fundo, imagino os tapinhas nas costas que ele tem recebido de suecos, finlandeses, dinamarqueses, alemães, belgas e austríacos. E os queixumes bem humorados em privado – e raivosos em público – de seus companheiros de Sevilha, Coimbra ou Salônica. Acho, na verdade, que as relações precisavam ser mais distendidas a respeito dessas "boutades". À medida que as pessoas se mostram excessivamente melindrosas com respeito a desabafos, se vai criando uma situação de recalque coletivo acumulado. O que daí resulta é que quando a válvula da pressão é acionada para que os vapores saiam da panela, são os populistas que embolsam os dividendos da frustração acumulada. Um pedido de desculpas deveria bastar para que essas coisas não ganhassem destaque excessivo. O moralismo melindroso presta um desserviço à democracia. 


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