Quem aguenta tanto amor?

Esse sentimento é como o bom vinho e os enchidos. Na dose certa, são divinos. Demais, matam

Por Fernando Dourado Filho, de Lisboa (Portugal)

Fernando Dourado Filho conta um romance português

Nesses últimos dias em Portugal, devo admitir que as horas passadas nos ônibus urbanos foram de longe as mais prazerosas da temporada, por incrível que possa parecer. Acompanhar o falar vivaz das pessoas e ouvir o vigor de uma prosa rica tanto na forma como no conteúdo, constitui uma das delícias desse país cujas pessoas parecem ter o que contar em profusão. Para não dizermos, bem entendido, dos eternos embates de lógica que permeiam a conversação do dia a dia entre eles e nós brasileiros. Ontem mesmo ao voltar pela terceira vez à modesta tasca onde como o prato feito (sempre bom), disparei: "Tens certeza de que este é o mesmo vinho verde de ontem?" Ao que a mocinha respondeu: "Tenho certeza de que NÃO o é porque o de ontem, ora pois, já o bebeu ontem mesmo. É novo, porém da mesma marca, se é isso que queria saber". Igual mancada dei ao perguntar a uma senhora se ao chegarmos à estação final do Forte do Queijo, teríamos baldeação para Matosinhos. "Chegarmos, quem? Eu não vou ao terminal, salto na Boavista. Mas imagino que tenha conexão para Matosinhos, sim. Se é isso o que o senhor quer saber". Ah, como eles são implacáveis conosco e nossa lógica mal calibrada. 

Mas as histórias podem sim ser bem mais elaboradas. Senão, vejamos. A caminho de uma reunião com mais uma editora portuguesa – elas começam a ser muitas com interesse no Brasil, apesar dos rumores que abalam nosso mercado de livros, mormente sobre o futuro da rede Cultura e sobre a retirada da FNAC do Brasil –, ouvia um senhor conversar com o sobrinho em tom que muito deu o que pensar. Contava ele a história de seu irmão, logo pai do jovem, cujo túmulo tinham acabado de visitar no cemitério de Agramonte, no Porto, por ocasião de seu aniversário de falecimento. No trajeto longo até Campanhã, agravado pelo trânsito pesado do horário, ouvi-o falar do irmão com uma melancolia tão intensa que cheguei à conclusão tratar-se de uma dessas pessoas que, embora fadadas ao sucesso, tinham tido uma sorte tão grande que, no final, esta virou azar e pode lhe ter custado a vida. E foi tamanha a riqueza de detalhes com que contou a trajetória, que não pude me furtar a tomar notas para escrever mais adiante a respeito. O que faço agora a caminho de Lisboa no trem Alfa-Pendular. Tentarei reproduzir suas palavras, mesmo sabendo que seria impossível lhe imitar os ingredientes do delicioso e policrômico linguajar lusitano.  

"Dos nove irmãos que éramos, teu pai foi o mais brilhante. De miúdo, já tinha uma cabeça tal para os números que nosso pai o chamava para conversar com o contador e resolver os problemas fiscais do armazém, quando mal tinha 12 ou 13 anos. Podes imaginar? Os mais velhos não tinham sequer como ralhar de ciúmes porque se via que tinha um dom divino e o orgulho contagiava a família toda. Lá pelas tantas, foi estudar engenharia mecânica ou algo que o valha na Alemanha. Uma lonjura dos diabos, na época, mas lá chegou ajudado por um professor. Dois anos depois, veio o 25 de Abril e muita gente boa voltou à Terra. Mas para ele, era tarde. Já estava acostumado a Manheim e achava que lá era seu lugar. Depois dos estudos, de fato, tencionava mesmo ir viver em New Bedford, onde tínhamos parentes na pesca e isso já seria meio caminho para ficar lá mesmo na Nova Inglaterra e fazer sabe Deus mais o quê. De cá de onde estávamos, acompanhávamos tudo estarrecidos. Seria o primeiro da família a ter estudos universitários e, vê bem, da mais alta qualidade. Foi então que lá pelas tantas conheceu tua mãe, creio eu que numa viagem que fez a uma festa de parentes no Canadá. Ela vivia em Boston, cidade com que ele sonhava.  

Filha de um português com uma nativa do Labrador, a tal Cristina era uma gaja bem apanhada, falava línguas e era inegavelmente muito devotada ao João Manoel, teu estimado pai. Então se casaram nos Açores, com a benção dos quatro pais vivos, logo teus avós, a meio caminho geográfico para ambas as famílias. E vieram os filhos, a começar por ti, meu afilhado. Na verdade, tudo na vida da Cristina girava em torno do bem estar do João Mané, como o chamávamos. Dizia nossa mãe que até as cartas dando conta das notícias de família, era ela quem as escrevia e ele só as assinava, já que os afazeres acadêmicos não lhe davam trégua. Eram felizes, como deves estar bem lembrado. Problemas tinham só mesmo quando ele tinha de viajar para os tais congressos profissionais. Se a Cristina não fosse, pois bem, diziam que não lhe deixava em paz, pois lhe telefonava onde estivesse e até acesso à lista de participantes queria ter, para ver se dela não constavam umas tantas gajas da universidade de quem desconfiava. Puro ciúme. Não sei se teu pai era um santo, mas se não tinha vocação, terminou por se tornar um. Pois ai dele se a Cristina desconfiasse de alguma coisa. Foi assim que dizem que foi se tomando de desgosto pela vida. Pois se isso era o que todos viam, imagina os demais dos bastidores de um casal. 

Assim, pelo que nos relataram à época alguns parentes, tudo para ele se tornava um sacrifício e para tudo lhe tinha que dar explicações – uma aberração para homens criados como nós. Quando teve uma indisposição cardíaca, a Cristina se tomou por culpas e resolveu interferir na medicação, na alimentação e até mesmo na agenda de atividades profissionais do pobre homem. Perdeu-se a conta dos doutores com quem ralhou aos gritos nos hospitais. Ele ficava mortificado, mas nada podia fazer àquela altura. Sequer nossa finada mãe tinha acesso a ele, mesmo quando vinham a ter aqui a Portugal, na Vila do Conde, de onde somos todos nós. O que nós da família podíamos fazer? De sã consciência, é bom que se diga, não podíamos reprovar aquela mulher formosa que lhe beijava as bochechas várias vezes ao dia e lhe servia o caldo verde à boca como se fosse um puto. Mas havia certa tristeza no olhar dele. Ora, diante disso, ela só se empenhava de mais a mais em lhe arrancar um sorriso e manifestações renovadas de amor. Certo é que já se vão dez anos da morte de teu pai. Ficamos felizes em ver que tua mãe ainda lhe tem quase um culto à memoria. Mas para longevos como somos todos nós, teu pai partiu cedo demais. Por que te digo isso? Porque és um sobrinho porreiro. E porque quero que te acauteles, portanto, por quem te apaixonas e com quem se apaixona por ti, filho. O amor é como o bom vinho e os enchidos. Na dose certa, são divinos. Demais, matam".


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Mario Esteves

Na primeira história a empregada não disse "Ora, pois". Isso é algo que nenhum português diz. Faz parte do folclore xenófobo brasileiro.

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